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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

"House of X" e "Powers of X": o fim do sonho e a ascensão de algo maior nos X-Men de Jonathan Hickman

(arte por Pepe Larraz e Marte Gracia)

O último dia 9 de outubro seria o aniversário de 79 anos de John Lennon, um dos artistas mais conhecidos e influentes da história, famoso por integrar os Beatles e por sua carreira solo, assim como por seu ativismo pela paz e sua visão de um mundo próspero, pacífico e unificado (mote de seu sucesso Imagine). E a data também marcou a conclusão definitiva das minisséries House of X e Powers of X com o lançamento da sexta edição da última, encerrando o pontapé inicial da fase do roteirista Jonathan Hickman à frente dos X-Men, um grupo que, conforme deixo claro em meu TCC, sempre almejou a convivência entre seres humanos e mutantes de uma forma próspera, pacífica e unificada.

Mas não mais.

(E ATENÇÃO: DAQUI PARA FRENTE, O TEXTO CONTERÁ SPOILERS DE HOUSE OF X E POWERS OF X, ENTÃO CONTINUE POR SUA CONTA E RISCO)


Antes, vale uma recapitulação: já tem um tempo que o nome X-Men não é sinônimo de qualidade ou vendas; por mais que algumas fases ou títulos tenham se sobressaído, as histórias e passagens ruins ainda tem maior número nos últimos 20 anos, fora a bagunça cronológica que já vem desde antes. Alguém precisava arrumar a casa, e é aí que entra Jonathan Hickman. O roteirista já havia obtido sucesso anteriormente na Marvel em suas aclamadas passagens pelo Quarteto Fantástico e Os Vingadores/Novos Vingadores (as quais culminaram na megassaga Guerras Secretas de 2015), nas quais demonstrou domínio histórico sobre os personagens e a criatividade para estabelecer novos conceitos, e se mostrava o cara certo para assumir esse serviço sujo. Anunciado oficialmente em março deste ano, foi revelado que tudo se iniciaria com as minisséries irmãs House of X e Powers of X (lê-se Powers of Ten), as quais seriam lançadas semanalmente de forma alternada, e que a fase redefiniria o papel dos mutantes no universo ficcional da editora.

Isso ficou claro para os leitores logo em House of X (ou HoX) nº 1, lançada no último 24 de julho. A revista apresentou um novo status quo para os mutantes, agora habitantes da ilha de Krakoa e em busca de seu reconhecimento perante a ONU como nação soberana e independente, a qual teria os antes heróis e vilões coexistindo como um só povo e, acima de tudo, Magneto encarregado da diplomacia, enquanto o Professor Xavier era capaz de andar novamente, agia de forma bizarra e apresentava um visual que em muito se assemelhava ao do Criador (vulgo Reed Richards do Universo Ultimate). Powers of X (ou PoX) nº 1, lançada na semana seguinte (31 de julho), apenas levantou ainda mais questões por trabalhar com quatro diferentes momentos: o Ano Um dos X-Men, que mostrou um estranho diálogo entre Moira MacTaggert e Xavier; o Ano Dez ou presente, principal elo entre os títulos; o Ano Cem, retratando uma devastadora guerra entre humanos e mutantes; e o Ano Mil, no qual essas diferenças pareciam superadas e a vida no planeta se preparava para o próximo passo evolucionário.

As respostas, óbvio, vieram nas edições seguintes, ao lado de conceitos de dar inveja em grandes produções de ficção científica e outros questionamentos e incertezas que devem guiar o que ainda está por vir. Se em PoX vemos ideias sobre modificações genéticas, evolução de inteligências artificiais (feitas para perseguir os mutantes, claro) e até mesmo escalas de sociedades existentes em níveis intergalácticos, HoX se focou em trabalhar melhor essa nova posição em que os X-Men se encontram, explorando as fundações sociopolíticas da emergente nação de Krakoa, apresentando uma forma plausível de se burlar a morte (e os personagens envolvidos no processo são os mais inusitados) e mostrando o Professor X agindo de uma forma mais maniqueísta do que já visto, fazendo todo o necessário para atingir seus objetivos, independente do quão moralmente questionável (ou simplesmente errado) seja, e até se alinhando com alguns do mais perversos adversários que seu grupo já enfrentou.

Acredite: fiquei tão em choque quanto você ao ver isso. (arte por Pepe Larraz e Marte Gracia)

Por maior que tenham sido as besteiras que Xavier tenha cometido no passado, nada indicava que ele viesse a agir de tal forma um dia, o que surpreendeu muita gente. Mas Hickman se valeu de um "retcon do bem" e esclareceu os eventos que levaram a tal mudança de atitude. Tudo se resume a um personagem, aquele que o roteirista classificou como "o mais importante mutante de todos os tempos":

Moira MacTaggert.

Não, você não leu errado.

A estranha conversa entre ela e Charles, vista nas páginas de Powers of X nº 1, foi esclarecida House of X nº 2, publicada na semana seguinte (7 de agosto): Moira é, na verdade, uma mutante cujo poder é, ao morrer, voltar ao ponto inicial de sua vida com todo o conhecimento de sua vida anterior, dando-lhe a vantagem de poder corrigir seus erros prévios ou simplesmente tentar algo totalmente diferente. No decorrer da HQ, passeamos por algumas das vidas da personagem (e tomamos conhecimento acerca das demais nas edições seguintes) e vemos sua dedicação à sobrevivência e prosperidade do Homo superior de diferentes formas, mas todas elas terminam com os humanos perseguindo e massacrando os mutantes, seja através das máquinas, seja ao ponto de forçar artificialmente sua própria evolução (e aí temos o conceito do Homo novissima).

Moira testemunhava o mesmo desfecho não importando as atitudes que tomasse, e nem mesmo alianças mais radicais alteravam o resultado. E foi assim por nove de suas vidas. Em sua décima tentativa, no entanto, decidiu mudar seu modus operandi e experimentar algo diferente, ainda mais extremo do que tudo o que já havia feito até então. Num belo dia, durante o Ano Um dos X-Men, ela se dirigiu a Xavier e abriu sua mente para que o telepata pudesse lê-la, revelando assim sua identidade, seu poder mutante, a experiência adquirida a cada encarnação e o desfecho que todas elas compartilhavam.

Momentos antes da grande revelação. (arte por R.B. Silva, Antonio Di Benedetto e Marte Gracia)

E então chegamos à edição lançada na última semana. PoX nº 6 mostra o que se deu logo após tamanha revelação: o Professor teve um pequeno colapso após receber tantas informações importantes. Ele não conseguia acreditar que, no futuro, eles perdiam, ou melhor, eles sempre perdiam. Sua primeira reação foi começar a avaliar o que ele poderia fazer de diferente, melhorar sua escolha de alunos... Mas Moira joga a triste realidade em sua cara ao dizer que sua idealização é errada, não dá resultados e eles precisam agir diferente para garantir o futuro da espécie. Ela quebra o espírito e os ideais de Xavier. É ali que seu tão conhecido sonho de convivência pacífica entre humanos e mutantes chega ao fim.

Essa cena, assim como suas consequências, mudam tudo o que sabíamos sobre esses personagens. Veja: os X-Men, quando concebidos nos anos 1960, eram uma metáfora para o racismo e os movimentos pelos direitos civis dos negros nos EUA, com o Professor Xavier e Magneto sendo, respectivamente, análogos de Martin Luther King e Malcolm X. E isso se manteve por mais de 50 anos, expandindo-se para abraçar outras formas de preconceitos sofridos por minorias e refleti-los nas páginas dos gibis. Após essas últimas doze semanas, no entanto, por mais que essas dinâmicas não tenham sido esquecidas ou completamente descartadas, isso não se mostra mais uma verdade absoluta. Os antes antagonistas estão unidos em prol de uma causa em comum que não apenas os envolve, mas toda a comunidade mutante, incluindo seus antigos vilões.

Mais do que isso: embora o velho e conhecido sonho de Xavier tenha sido destroçado por Moira, algo ainda maior surgiu de seus escombros. Se uma nação mutante que acolhesse todos os seus iguais de portas abertas parecia algo distante (especialmente após Genosha), ele, ao lado de seus dois aliados, fez com que se tornasse uma realidade. E mais do que um mero território físico, ela vem se estruturando em uma sociedade, com suas próprias leis, organização política, força de vigilância e até mesmo alfabeto, forma escrita e linguagem. Ainda possuem reconhecimento da ONU, acordos comerciais, mecanismos de defesa e, claro, planos para superar a humanidade em qualquer mal que tentar lhe infligir. No fim, saem de cena as citadas analogias sobre racismo e demais preconceitos para dar lugar a algo que soa como uma mistura entre os conceitos de luta de classes e revolução proletária de Karl Marx com a sobrevivência do mais apto de Darwin e Herbert Spencer.

Dá pra ouvir o espírito do Xavier se partindo nessa imagem. (arte por Pepe Larraz e Marte Gracia)

Claro que tudo isso parece muito bonito na teoria, mas a realidade, ainda que dentro de um gibi, não é bem assim. É impossível que o resto do planeta simplesmente fique passivo a tais acontecimentos. E o desfecho mais óbvio? Uma guerra entre humanos e mutantes, assim como aconteceu nas nove vidas anteriores da Moira, mas uma em que os últimos tenham maiores chances e, possivelmente, até consigam ganhar e conquistar seus devidos lugares como os herdeiros naturais da Terra. Ou então a humanidade pode se cansar de ver suas tentativas de destruir os mutantes falharem ou serem preventivamente sabotadas e simplesmente aceitar que serão evolucionariamente substituídos. O mais provável, no entanto, é que não seja nada disso e Jonathan Hickman tenha uma ideia mais criativa para a conclusão de sua fase.

Não dá pra descartar, também, que algo algo aconteça com a sociedade de Krakoa que a impeça de prosperar. Temos que lembrar que a ilha não é habitada apenas pelos "heróis", mas também por vilões de alto calibre como Apocalipse, Senhor Sinistro e Sebastian Shaw, e talvez um deles, colocando seus interesses pessoais e desejos de poder acima dessa enorme conquista da comunidade mutante. E nem mesmo a "santíssima trindade" idealizadora de todo o plano está com as mãos limpas, especialmente por termos visto Xavier e Magneto diminuírem Moira e limitarem de forma drástica seu papel em meio a isso tudo na última semana. Pelo conteúdo das anotações mostradas em PoX nº 6, não seria uma surpresa se, em algum momento, ela viesse a mudar de ideia e passasse a achar que o mundo seria melhor sem os mutantes, sabotando todo o trabalho que foi feito.

(arte por Pepe Larraz e Marte Gracia)

Voltando a John Lennon, em sua música God há a célebre frase "o sonho acabou", em referência ao término dos Beatles. Tais palavras também se aplicam aos X-Men pós-House of X e Powers of X. A diferença é que, ao contrário da mais famosa banda de todos os tempos, algo muito maior surgiu do fim do sonho de Xavier: uma realidade na qual todos os mutantes estão unidos, seguros e preparados para enfrentar o que vier pela frente. Mas até quando ela irá durar? Isso é algo que só saberemos com o passar dos próximos meses ou anos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Resenha de UM parágrafo sobre "CORINGA"!


Perturbador. Incômodo. Depressivo. "Coringa" é um filme que consegue instigar todas essas emoções no espectador ao mesmo tempo que o leva a reflexões acerca da sociedade, a forma que ela trata seus cidadãos mais necessitados e como basta apenas uma fagulha para que toda a civilização parta para a barbárie, em momento algum glorificando os atos de seu protagonista, que é alguém impossível de conquistar a simpatia do público. E muito disso se deve à atuação de Joaquin Phoenix, que merece toda a aclamação que vem recebendo, mas que não está sozinho e conta com o apoio de todo um elenco afiado, além de uma trilha sonora que consegue agravar ainda mais os momentos de impacto, tal qual sua fotografia claustrofóbica, asfixiante. É sim um filme baseado em quadrinhos, em especial devido a suas pequenas inconsistências e furos (eclipsados por seus pontos fortes), mas definitivamente não é uma adaptação "padrão".

TRAILER:

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Resenha de UM parágrafo sobre "HOMEM-ARANHA: LONGE DE CASA"!


O Homem-Aranha integrado ao UCM chega a seu segundo filme de forma leve, divertida e com o mesmo espírito de comédia adolescente de seu antecessor, o que deve agradar em cheio os fãs dos longas. O ponto mais fraco aqui é a forma que o protagonista é escrito: Peter é meio bocó, extremamente inocente e, numa falha que desafia o próprio cerne do herói, tem os poderes, mas nenhuma responsabilidade. Por outro lado, o Mystério de Jake Gyllenhaal é o ponto mais forte da adaptação, com uma atualização de seus conceitos para a atualidade que caiu como uma luva. O humor é bem trabalhado, tal qual a relação entre os personagens; a trilha sonora é envolvente, mas as duas cenas pós-créditos roubam o show: a primeira por ditar o futuro do Aranha (e ter uma participação muito especial) e a segunda por indicar os caminhos que a Marvel deve seguir em sua fase 4.

TRAILER:

quarta-feira, 27 de março de 2019

Batman 80 anos - 8 histórias que não são as mesmas de sempre


Hoje, o Batman completa 80 anos de sua primeira aparição em uma história em quadrinhos, na edição nº 27 de Detective Comics, de 1939. Claro que é uma data simbólica, pois o registro exato da chegada da revista às bancas de jornal estadunidenses foi perdido com o tempo (até porque elas vinham com um mês na capa, mas chegavam com pelo menos dois meses de antecedência para o público), e também está alinhada tanto com o dia em que os lançamentos chegam às comic shops dos EUA quanto com o lançamento da edição nº 1000 de Detective Comics, o segundo gibi a atingir a marca (o primeiro foi Action Comics no ano passado). 

De qualquer forma, esta grande celebração do aniversário de um dos personagens mais queridos da cultura pop levará diversos sites a soltarem suas listas com as melhores histórias do Morcegão de todos os tempos, e todas elas terão aquelas mesmas escolhas que já cansamos de ver: Batman: O Cavaleiro das TrevasBatman: Ano UmBatman: A Piada Mortal, Batman: O Longo Dia das Bruxas, talvez um Batman: Asilo Arkham - Uma Séria Casa em Um Sério Mundo e LJA: Torre de Babel, e pessoas desprovidas de bom-senso incluirão Batman: Silêncio e Batman: A Corte das Corujas. E, independente da qualidade, são todas HQs batidas, que basicamente qualquer pessoa viva já ouviu falar um dia. Por isso, cá estou eu para fugir do senso comum e listar 8 histórias muito boas protagonizadas pelo Cruzado Encapuzado que não são essas de sempre, e você pode conferir minha seleção logo abaixo:

"BATMAN: LOUCO AMOR E OUTRAS HISTÓRIAS"


Batman: A Série Animada foi um estrondoso sucesso à época, sendo fundamental para o retorno do personagem às graças o público geral ao lado dos filmes dirigidos por Tim Burton e até hoje é tida como sua melhor adaptação para outras mídias. A animação também foi importante para dar ao mundo a Arlequina, que inicialmente faria apenas uma breve aparição em um episódio, mas caiu nas graças tanto do público quanto dos produtores. Querendo se aprofundar mais em sua criação, Paul Dini e Bruce Timm planejaram contar como ela veio a ser quem é no próprio desenho, mas o roteiro foi vetado pelos executivos. Então, a dupla desenvolveu a trama em uma graphic novel fechada, e assim nasceu Batman: Louco Amor, a história que mostra como a psiquiatra Dra. Harleen Quinzel se tornou a Palhaça do Crime de Gotham City e que, apesar do visual cartunesco, apresenta temas complexos como relacionamento abusivo e Síndrome de Estocolmo. Edições mais recentes trazem também algumas outras tramas relacionadas e outros trabalhos de Dini e Timm nos gibis derivados do desenho animado. Ah, e após o sucesso desta HQ, Louco Amor acabou se tornando um episódio de As Novas Aventuras do Batman, inclusive tão bom quanto ela.

"BATMAN/PLANETARY: NOITE SOBRE A TERRA"


Planetary é um quadrinho criado por Warren Ellis e John Cassaday que, em tramas que envolvem aventura e ficção científica do mais alto nível, realiza um grande estudo da cultura pop global em 27 edições e mais 3 graphic novels. Uma delas é Batman/Planetary: Noite Sobre a Terra, que mostra o trio formado por Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista indo até a Gotham City de sua Terra para investigarem alguns estranhos crimes e uma possível distorção da realidade. Durante os procedimentos, o fluxo espacial muda e eles acabam se deparando com o Batman. A partir disso, os Exploradores do Desconhecido com várias das marcantes versões que o Homem Morcego teve durante os anos em uma divertida e rica trama que faz sua análise e presta sua homenagem ao personagem, deixando claro por que ele é tão importante e como tem durado por tanto tempo. Eu recomendo a leitura da série completa, mas esta é uma trama fechada e pode ser lida separadamente do resto com praticamente zero prejuízo, então vá sem medo.

"BATMAN: XAMÃ"


Eu não lembro onde foi, mas sei que procurei sobre esta história antes de comprá-la e li mais ou menos o seguinte: "se Ano Um é a origem urbana do Batman, esta é a origem mística". Esta análise não poderia estar mais correta, pois Batman: Xamã também se passa no primeiro ano de atuação do herói e complementa a tão celebrada obra de Miller e Mazzuchelli, em uma trama detetivesca recheada de elementos de misticismo que mostra o protagonista tendo contato com alguns nativos americanos que resgatam sua vida de um acidente, avançando no tempo para mostrar Gotham sendo assolada por assassinatos, tráfico de drogas e seitas de sacrifício humano que se mostram surpreendentemente conectadas por elementos deste seu passado não muito distante. Uma ótima leitura vinda de uma das maiores mentes que já passaram pelos títulos do personagem em todos os tempos, aliada a uma equipe artística igualmente competente.

"BATMAN: A TRILOGIA DO DEMÔNIO"


Pode parecer trapaça, afinal são três histórias: Batman: O Filho do Demônio (1987), de Mike W. Barr e Jerry Bingham; Batman: A Noiva do Demônio (1990), de Mike W. Barr e Tom Grindberg; e Batman: O Nascimento do Demônio (1992), de Denny O'Neil e Norm Breyfogle. No entanto, é impossível citar uma sem citar as demais, já que todas exploram detalhes até então desconhecidos sobre Ra's Al Ghul, especialmente a terceira, que é sua história de origem, enquanto as outra duas mostram sua incessante busca por um herdeiro para seu império de terror, tudo envolto por aquele clima de investigação e aventura que apenas o Batman pode oferecer. Do início ao fim, a trilogia é um deleite textual e visual.

"BATMAN: O HOMEM QUE RI"


O final de Batman: Ano Um deixa um gancho para apresentar o primeiro encontro entre o Coringa e os protetores de Gotham. Quem ficou encarregado de preencher esta lacuna foi o roteirista Ed Brubaker ao lado do artista Doug Mahnke. Funcionando como uma sequência direta e emprestando muitos dos elementos narrativos ali vistos, Batman: O Homem Que Ri é uma atualização da primeira aparição do Palhaço do Crime em Batman nº 1, de 1940, em uma trama de pura investigação policial que mostra o vilão espalhando sua onda de caos por Gotham e que é a pedra fundamental de um dos mais doentios antagonismos já vistos na ficção. Muito do que Christopher Nolan mostrou em seus filmes, especialmente em Cavaleiro das Trevas, tem origem aqui.

"BATMAN: MORTE EM FAMÍLIA"


O dia em que o Robin morreu é, certamente, uma das mais marcantes passagens em toda a trajetória do Cruzado Encapuzado. Batman: Morte em Família mostra este traumatizante evento (decidido por ligações telefônicas feitas pelos fãs em uma disputa acirrada) em uma trama que aborda responsabilidade, rebeldia, insubordinação e responsabilidade e que leva seus protagonistas para fora de Gotham City, situando-se em países africanos em sua maior parte. O desfecho do arco é um tanto mirabolante para os padrões atuais, mas ver o Coringa espancando Jason Todd com um pé de cabra e depois explodindo o armazém onde ele estava preso sepultaram qualquer resquício de inocência que ainda restava ao herói.

"BATMAN: O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?"


O Batman morreu (durante a Crise Final). Como seria o funeral dele? Bom, Neil Gaiman e Andy Kubert meio que responderam esta pergunta em Batman: O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?, um título que presta sua homenagem à clássica Superman: O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, de Alan Moore, Curt Swan e George Pérez. Neste arco de apenas duas edições, vemos diversas figuras importantes para o Maior Detetive de Todos os Tempos, sejam aliados ou vilões, atendendo a seu velório e prestando sua últimas homenagens, sempre contando uma história que passaram juntos e referenciando às mais diversas eras do Homem Morcego nos quadrinhos. Uma belíssima história repleta de homenagens e que deixa claro o que herói significa e por que ele é indispensável.

"LJA: NOVA ORDEM MUNDIAL"


Esta é uma história da Liga da Justiça, sim, a gênese de toda a fase de Grant Morrison e Howard Porter a frente do título em seu relançamento, mas o Batman é fundamental para seu desenvolvimento e conclusão. LJA: Nova Ordem Mundial mostra Superman, Mulher-Maravilha, Batman, Aquaman, Caçador de Marte, Flash (Wally West) e Lanterna Verde (Kyle Rayner) unindo esforços após um estranho grupo de supostos heróis vindos do espaço aparece prometendo o fim de todas as mazelas da Terra, mas nada é o que parece. Vemos aqui o Cruzado Encapuzado ser subestimado por seus inimigos, o que o leva a descobrir suas verdadeiras identidades e intenções ao ponto de conseguir derrotar boa parte deles sozinho enquanto o restante da Liga é mantido em cativeiro, deixando claro por que ele é o "homem mais perigoso do mundo".

BÔNUS: "BATMAN: A MÁSCARA DO FANTASMA"


Esta não é uma história em quadrinhos, mas sim um longa animado derivado de Batman: A Série Animada. Eu já falei muito sobre ele aqui, mas é sempre válido recomendá-lo. Então, se você ainda não assistiu Batman: A Máscara do Fantasma, pare tudo que você está fazendo e vá ver este que é o melhor filme já feito do personagem, funcionando como uma história fechada que mostra tanto sua origem quanto uma aventura completamente inédita, recheada de ação e com competência o suficiente para comover desde aqueles que pouco conhecem o herói até os seus maiores fãs.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Resenha de UM parágrafo sobre "AQUAMAN"!


Passado mais de um ano desde o fracasso retumbante de Liga da Justiça entre o público e a crítica, a DC reencontra o caminho com seu herói mais zombado em todo imaginário popular. Abusando das cores como até então não visto em todo este universo cinematográfico, Aquaman apresenta uma mescla de epopeia com aventura (que flerta com uma pitada de tosquice e breguice de tons quase verhoevianos) aliado a ricas criações de monstros e cenários através de um competente CGI, algo raro de se ver nos filmes de herói atualmente. Embora o ar romântico principal não funcione como o esperado, todo o resto se mostra bem azeitado, com Jason Momoa esbanjando carisma no papel principal e protagonizando cenas de ação estilizadas ao lado de seus companheiros de elenco (com Nicole Kidman, Patrick Wilson e Amber Heard surpreendendo em um terreno que está longe de suas zonas de conforto). Tudo isso é embalado por uma boa seleção de músicas e a estilizada trilha sonora de Rupert Gregson-Williams até o fim, que soa um pouco vago, mas não prejudica a experiência. 

TRAILER:


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

"Transmetropolitan", um grito de sanidade em tempos insanos (ou como a vida imita a arte com requintes de crueldade)


Transmetropolitan é uma série em quadrinhos criada por Warren Ellis e Darick Robertson, respectivamente escrita e desenhada pela dupla, com o último sendo auxiliado por Rodney Ramos. Lançada em 1997 e encerrada em 2002, totalizando 60 edições, é ambientada nos Estados Unidos em um futuro cyberpunk e apresenta o jornalista Spider Jerusalem retornando às suas atividades após se exilar de toda a sociedade por cinco anos. As regras como conhecemos hoje já não existem mais naqueles tempos, nos quais todas as doenças possuem curas, o uso de drogas é liberado, novas religiões surgem a cada minuto, os alimentos se tornaram ainda mais bizarros e por aí vai, sendo apenas a ponta do iceberg. Mas há também o que persiste: a miséria, a violência urbana, a prostituição e exploração sexual - inclusive infantil -, a falta de ética e escrúpulos dos políticos, péssima programação de TV. Através disso tudo e aliado a boas doses de humor, Ellis e Robertson estabeleceram sua sátira do que o mundo poderia vir a se tornar e teceram suas críticas às atualidades da época.

É assustador, porém, ver o quão atual a história se mostra para hoje. Claro, há alguns elementos que não acompanharam a evolução da realidade, mas outros temas se mantêm pertinentes ao que é visto por aí atualmente e devem continuar a ser pauta no futuro por sabe-se lá quanto tempo, o que pode vir a tornar a obra atemporal (e, por ora, é mesmo). Pior ainda é perceber a quantidade de previsões que foram feitas naquelas páginas, especialmente na tecnologia, mas também na sociedade e na política, nos quais vivenciamos os principais paralelos possíveis de serem feitos no momento.

O segundo ano da HQ (o que corresponde às edições 13 a 24) é todo dedicado às eleições presidenciais daquele futuro e a cobertura de Spider dos eventos, algo que ele já havia feito anteriormente e que foi o motivo pelo qual ele ganhou reconhecimento profissional e fama. O sistema bipartidarista dos EUA foi mantido até aquele momento e são candidatos o atual presidente, carinhosamente apelidado por Jerusalem de "A Besta", e seu opositor, o então senador Gary Callahan, que ganha o apelido de "Sorridente" porque, bem... Ele sorri. Até demais. E forçadamente.

Spider tem algo a dizer sobre o voto para vocês. De nada.

O protagonista, desde os primórdios de sua carreira, foi uma força contrária ao Chefe de Estado no poder e sempre fez de tudo para infernizar sua vida, mas durante uma conversa franca entre os dois, algo ficou claro: A Besta, apesar de ser um lixo de ser humano, tinha princípios e fazia o mínimo para manter o país funcionando. Não que seja algo impressionante, mas já ia além do que ele imaginava. Investigar o adversário, no entanto, foi mais complicado: era uma figura de pouca relevância política até então, sendo desconhecido pela população geral, inclusive pelo jornalista que, afinal, passou 5 anos longe de todo e qualquer contato com a civilização. Mas ele o faz mesmo assim, expõe alguns escândalos de Callahan e traz o seu verdadeiro eu a tona: o Sorridente odeia a população, pretende fazê-la sofrer e, se eleito, ira acabar com a vida de Spider. Simples assim. E em meio a isso tudo, acontece um atentado que alavanca sua popularidade.

Chega o dia da votação e, apesar de todos os esforços feitos para mostrar que A Besta ainda tinha alguns (poucos) escrúpulos e o Sorridente era puramente diabólico, a população elegeu Gary Cahallan com uma ampla vantagem. E isso revoltou Spider Jerusalem ao máximo pois, por mais que ele tenha cumprido seu dever e dado todos os avisos, o país preferiu ignorar tudo isso e ir direto na pior opção, como voluntários para ver se o abismo tinha fim. O que seguiu a eleição foi uma série de eventos horríveis, indo desde a censura da mídia e da liberdade de expressão até a ordenação de massacres deliberados contra inocentes. Não foi por falta de alerta.

A lição que fica de Transmetropolitan, dentre várias outras, é: ouçam os Spider Jerusalem que estão por aí (e, se possível, SEJA você também um Spider Jerusalem). Confie na realidade diante de seus olhos, não sob a ótica de outros. Ouça o que gente renomada tem a dizer. Procure fontes. E, acima de tudo, não pague para ver se pode piorar, porque pode sim, e muito. Spider parecia a única voz sã berrando para um bando de insanos, foi ignorado e tudo de pior que poderia acontecer, aconteceu. A realidade que vivemos tem mais vozes, mas parece estar seguindo pelo mesmo caminho. Não deixe que o mostrado no quadrinho saia de suas páginas.

A revolta de Spider. E com razão.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #3: "Superman - Entre a Foice e o Martelo"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, Verdade, Justiça e o Modo de Vida Soviético em um dos mais marcantes contos do personagem na Era Moderna.

E se a nave do Superman chegasse à Terra com 12 horas de diferença, não caindo em uma área rural do Kansas, mas sim em uma fazenda na União Soviética?

Esta provavelmente é uma pergunta que ninguém havia feito antes. Exceto o escritor Mark Millar, que se questionou sobre isso após ler, ainda criança, uma história publicada em Superman #300, em que a nave de Kal-El caía em território neutro entre os EUA e a URSS, com ambos os lados disputando a custódia do visitante de outro planeta. O impacto da ideia em sua mente foi tão grande que ele fez questão de guardá-la pelo tempo que fosse necessário até que pudesse trabalhar com ela de forma adequada. E demorou, mas ela finalmente pode ver a luz do dia, mais de 20 anos depois de a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixar de ser uma ameaça e sequer existir.

Superman - Entre a Foice e o Martelo foi publicada em 3 partes no ano de 2003, durante uma época em que não era incomum ver versões alternativas de heróis da DC dando as caras através do selo Túnel do Tempo (Elsewords, no original), o que chegou a render curiosidades como Superman: Morcego de Aço ou Batman: In Darkest Knight (que, pasmem, segue inédito no Brasil), além de clássicos absolutos como JSA: A Era de Ouro e Reino do Amanhã. Desde então, se tornou uma das mais celebradas e queridas interpretações do personagem, seja por sua história, a forma que realizou sua releitura ou os dilemas e questionamentos que traz dentro de seu roteiro.

Não importa a orientação política: o Superman sempre será o Superman.

A trama engloba um período compreendido entre 1953 e 2001, e se desenvolve a partir da questão levantada ao início do texto: a nave de Kal-El cai em uma fazenda coletiva na Ucrânia, território pertencente aos soviéticos, e ele ali cresce até decidir revelar sua existência em público, realizando seus primeiros atos heroicos em Moscou e rapidamente sendo adotado pelo povo e, principalmente, pelas lideranças do Partido Comunista e do governo, ainda encabeçadas por Josef Stalin. Sua aparição não passa despercebida do outro lado do mundo, porém, e o governo dos Estados Unidos logo alerta sua população sobre a existência do "campeão do trabalhador comum que luta uma batalha sem fim por Stalin, socialismo e a expansão internacional do Pacto de Varsóvia", acionando na sequência seu mais brilhante cidadão, Lex Luthor, casado com a intrépida jornalista do Planeta Diário que fez sua carreira como Lois Lane.

Este tipo de brincadeira com o que é conhecido sobre o Superman do universo principal da DC vem a ser um dos principais atrativos do quadrinho. Ver o Homem de Aço pautar seus ideais conforme aquilo que acredita ser certo dentro do regime ditatorial socialista acaba por dar uma nova dinâmica ao personagem, ainda que seu conceito principal permaneça inalterado (dentro de uma lógica distorcida, é claro). Luthor, por sua vez, acaba sendo a grande estrela em seu país ao não ser ofuscado pelo herói, até conquistando aquela que normalmente seria sua esposa, mas sua obsessão pelo alienígena soviete e suas tentativas de derrotá-lo acabam por manter o gênio na posição de antagonista, seja em sua versão cientista louco, magnata dos negócios ou presidente, em alusão às várias fases vivenciadas pelo vilão. Estas reimaginações não se limitam aos protagonistas, no entanto, e acabam abraçando muitos outros elementos conhecidos da editora, rendendo até uma versão socialista da Mulher-Maravilha, um Batman em total oposição ao sistema, um Jimmy Olsen agente da CIA e por aí vai. 

A grande força de Entre a Foice e o Martelo está, porém, na forma com que Millar conduz o quadrinho. Em meio a um enredo repleto de elementos tipicamente super-heroicos e de ficção científica, está um forte comentário político, como é de se imaginar. E o escritor triunfa justamente ao fugir do senso comum, não se deixando levar por uma visão maniqueísta de "capitalismo bom, socialismo ruim" ou vice-versa, focando-se em retratar os pontos fortes e fracos de ambos os sistemas. Quando trata do regime mantido pelos soviéticos, por exemplo, em meio a distribuição de renda, lobotomias, pleno acesso e funcionamento de serviços públicos e eliminação de opositores a sangue frio, fica clara a mensagem: apenas um verdadeiro super-homem poderia fazer aquele sistema funcionar, e não a toa ele fracassou. E do lado estadunidense, a liberdade e a democracia vêm acompanhadas da demonização de seus adversários, do apoio a homens insanos como último recurso, da quebra do sistema capitalista em face de um duro bloqueio econômico e seu retorno à prosperidade apenas através de uma rígida interferência estatal em diversos setores da sociedade. Estes são apenas alguns exemplos dentre vários outros que traduzem o pensamento do autor quanto ao fato de não haver preto no branco quando o assunto é política, apenas áreas densamente cinzas que se refletem tanto no Superman quanto em Lex Luthor, ambos frutos dos sistemas em que foram criados.

Tal clima político seria bem menos impactante se não fosse o trabalho de arte desenvolvido nas três edições da HQ. Embora haja uma clara diferença entre os estilos de Dave Johnson e Kilian Plunkett, ambos tem êxito na execução da proposta de misturar propaganda e símbolos socialistas a um traço muito semelhante ao visto no desenho animado do Superman da década de 1940, produzido pelos irmãos Fleischer. É estranho ver uma mudança entre artistas no meio da minissérie, mas ela faz sentido se pensada como uma forma de representar a mudança de época em forma de um comentário metalinguístico, referenciando-se às eras dos quadrinhos de super-herói, algo que acontece no roteiro através de uma mudança na tonalidade da trama e no comportamento dos personagens. Ou simplesmente pode ter sido algo necessário para cumprir os prazos para entrega das revistas. Seja como for, os dois cumprem o papel que lhes é incumbido, com quadros detalhados e figuras dinâmicas. E, como curiosidade, é justo ressaltar que Alex Ross participou dos estágios iniciais da concepção visual, trabalhando a aparência e uniforme do protagonista nesta reinterpretação.

A Era de Prata dos quadrinhos de super-herói, vista sob a ótica soviética.

Para uma história tão ambiciosa, apenas um final a altura seria aceitável. E o que foi entregue não decepcionou, pelo contrário: o inteligente desfecho para o conflito, seguido de uma gritante reviravolta nas páginas derradeiras, são marcantes o suficiente para fazer com que qualquer fã coloque a obra entre suas favoritas, tanto do herói quanto do meio. É curioso pensar que a conclusão da briga entre Estados Unidos e União Soviética, embora seja precedida por um confronto com todos os elementos clássicos de um gibi super-heroico, se dá através de uma solução psicológica, assim como foi boa parte do enfrentamento da Guerra Fria. E quanto a inesperada virada vista ao fim, sua existência é devida a ninguém menos que Grant Morrison, que aconselhou o então amigo Mark Millar a encerrar a trama de tal forma. Pode parecer uma simples contribuição, mas é difícil imaginar o quadrinho recebendo tamanha aclamação sem este "pequeno" detalhe, que o faz beirar o impecável de cabo a rabo.

Superman: Entre a Foice e o Martelo teve grande repercussão e publicações em todo o mundo. No Brasil, saiu pela primeira vez em 2004, respeitando o formato de minissérie em três edições individuais, que foram encadernadas e trouxeram a história de volta ao mercado em 2006, em uma edição de capa cartonada. Depois disso, apenas em 2017 o publico pode ter novamente acesso a uma versão localizada do quadrinho, com o lançamento de um encadernado em capa dura e preço acessível. Todas elas ficaram por encargo da Panini que, infelizmente, cometeu alguns deslizes em seu mais recente formato e deixou passar alguns erros grotescos de tradução, ortografia e revisão, sendo o mais simbólico deles o "capas" no lugar de "capaz" logo nas primeiras páginas, o que espera-se que tenha sido corrigido em reimpressões posteriores.

Talvez ninguém tenha se perguntado antes o que teria acontecido se a nave do Superman tivesse caído na URSS ao invés dos EUA, com exceção de Mark Millar. Mas a resposta para esta questão acabou por tomar o mundo de assalto e marcar a já extensa história do super-herói mais antigo existente em uma de suas mais criativas reinterpretações. Mais do que isso, serviu para desmistificar imagens criadas durante a Guerra Fria e mostrar que não existem questões fáceis quando se trata de política, um campo que, definitivamente, não permite distinções brandas entre heróis e vilões na disputa por hegemonia e poder.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Triste com o filme do Venom? Pelo menos a atual HQ dele é muito boa!


Queira ou não, goste ou não, o Venom é um dos personagens mais populares que saiu das páginas dos quadrinhos do Homem-Aranha. Surgido como vilão no final dos anos 1980 e transformado em anti-herói graças a seu crescente apelo nas histórias do aracnídeo, a criação de Todd McFarlane e David Michelinie já passou por diversas fases (chegando até a integrar os Guardiões da Galáxia) e seu simbionte já fez par com diversos hospedeiros, mas sempre é lembrado pelo original, Eddie Brock, e o clima de terror e violência que marcaram sua primeira aparição. O impacto de seu surgimento foi grande o suficiente para angariar fãs e levá-lo até as telas do cinema pela primeira vez como um dos antagonistas de Homem-Aranha 3, em 2007, e retornar neste como protagonista de Venom, sua primeira empreitada solo que, por escolha dos produtores, mostra-se isolado do universo do herói que o colocou nos holofotes.

Infelizmente, apesar de estar indo bem nas bilheterias, seu filme autointitulado acabou não vivendo às expectativas, decepcionando tanto crítica quanto público, que se depararam com uma história desorganizada que não foge do básico, momentos bizarros e efeitos especiais pouco convincentes, de modo que nem mesmo as boas atuações do competente elenco conseguem se sobressair às inúmeras falhas. É uma pena e um desperdício, de fato. No entanto, nem tudo são más notícias quando se trata do personagem: Venom vive uma de suas melhores fases nas páginas das revistas em quadrinhos, com roteiros de Donny Cates e desenhos de Ryan Stegman, dois talentos em ascensão que vêm ganhando cada vez mais espaço na Marvel.

Logo na primeira edição da HQ já é possível perceber o quão diferenciada ela é: tudo se inicia com Brock tendo sonhos estranhos situados na Idade Média, em que ouve um idioma que não consegue identificar. Ao acordar, encontra o simbionte acuado, sem entender o que está acontecendo ao certo. Ainda assim, resolvem sair para patrulhar e tentar salvar algumas vidas. É a partir daí que as coisas ficam ainda mais interessantes: o parasita alienígena foge do controle em um confronto, Eddie descobre que o "seu outro" (como ele carinhosamente chama o organismo extraterrestre com quem divide o corpo) não foi o primeiro a aparecer na Terra e parte em busca dos velhos companheiros de equipe de um ex-agente da SHIELD que conhece entre estes acontecimentos.

Parece loucura, não? Pois essa pegada se mantém nos números seguintes, adicionando cada vez mais elementos absurdos. Mentes conectadas, dragões intergaláticos, deuses do abismo, ligações com a origem do universo e os Celestiais, a guerra do Vietnã... É possível encontrar tudo isto e mais um pouco em Venom. E o mais impressionante é que FAZ TOTAL SENTIDO. O trabalho de Cates na criação e desenvolvimento da trama consegue encaixar os mais variados elementos das principais fases do personagem (e até de outros, como é o caso do Thor) e combiná-los com criações próprias para trazer a tona uma mitologia rica e que faz jus às raízes do antigo vilão do Homem-Aranha. Ao mesmo tempo, não se esquece de entreter o leitor e equilibra o desenrolar da história com cenas de ação frenéticas ao lado de Stegman que, apesar de apresentar uma arte ligeiramente confusa em alguns momentos, entrega grandiosidade e exagero sempre exigido dele.

O gibi vem se destacando nos Estados Unidos, com inúmeros elogios dos veículos especializados edição após edição, além de ter conquistado uma boa base de fãs, que provavelmente foi formada pelos incansáveis fanáticos pelo anti-herói, apreciadores de uma boa leitura e quem entrou no hype do filme e acabou se deparando com uma ótima publicação. Curiosamente ou não, a revista triunfa exatamente nos aspectos que o recente longa falhou, apresentando uma trama coerente e que foge (muito) do lugar comum, momentos que surpreendem e um bom trabalho artístico. Ryan Stegman declarou uma vez que "Venom era melhor que Watchmen", algo que rapidamente foi abraçado pelos leitores. Uma brincadeira, claro, mas seu trabalho ao lado de Donny Cates vem se mostrando de altíssimo nível e não é exagero dizer que a dupla está fazendo uma das melhores HQs atualmente disponíveis no mercado, a qual certamente já marcou a história do personagem.

Acredite: este é só o início das pirações que acontecem em "Venom". Ficou curioso? Vá ler a HQ!

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Capitã Marvel vem aí para chutar nossas bundas (ao som de Pearl Jam após alugar uma fita VHS)


Sorriam, fãs da Marvel ao redor do mundo! Após anos clamando por um filme solo de alguma de suas principais heroínas (algo que já deveria ter acontecido há tempos com, no mínimo, a Viúva Negra), está chegando o dia de o estúdio finalmente entregar uma de suas mais aguardadas adaptações desde seu anúncio no fim de 2014: Capitã Marvel. O longa, que já deveria ter sido lançado em julho deste ano de acordo com o planejamento inicial, finalmente chegará aos cinemas brasileiros em 7 de março de 2019, com estreia estrategicamente marcada nos EUA e demais mercados no dia subsequente, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Após a divulgação das primeiras imagens e detalhes através da Entertainment Weekly, hoje foi a vez de mostrar o primeiro pôster e trailer, revelados durante a participação da atriz Brie Larson, que dá vida à protagonista, no programa estadunidense Good Morning America. Simples e pouco reveladores, porém poderosos, os materiais promocionais deixam uma mensagem bem clara: a Marvel Studios não está para brincadeiras, seja no que diz respeito à introdução daquela que promete ser a principal super-heroína de seu universo cinematográfico, seja para enfrentar a competição e possíveis comparações da DC que, além de Shazam! (o Capitão Marvel original), também tem marcada a estreia de Mulher-Maravilha 1984 para o próximo ano.

A prévia dá pistas do que esperar do filme, porém. Amnésia, passado como piloto de caças militares, natureza alienígena dos poderes, fica claro que, como era de se esperar, a origem de Carol Danvers será diferente da vista nos quadrinhos, deixando de lado a identidade super-heroica de Ms. Marvel (o que deixa aberta a possibilidade da introdução de Kamala Khan em um futuro próximo) e já indo direto aos finalmentes, com a presença da Carol Corps., capacete com moicano e as habilidades cósmicas de quando foi conhecida por Binária. Ao mesmo tempo, muita ação aliada ao clima típico dos anos 1990, época em que o longa se situa (com direito até à presença de uma loja da rede de videolocadoras BlockBuster), acabam por remeter à clássicos como Exterminador do Futuro 2 e Duro de Matar 2 e 3. E vale ainda o destaque para o jovem Nick Fury, a participação de Jude Law (que suspeito que será a versão cinematográfica de Mar-Vell) e, como não poderia deixar de ser, a cena em que a personagem-título dá um soco em uma velhinha, provavelmente um Skrull disfarçado, como já apontado por vários sites.

Confira abaixo o primeiro trailer de Capitã Marvel:


De quebra, fique também com o belo primeiro pôster do filme:

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #2: "Reino do Amanhã"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, uma HQ em que os heróis de outrora tiveram que crescer.

A década de 1990 foi um período conturbado para a indústria de HQs estadunidense. Enquanto a parte mercadológica sofreu com a "Bolha dos Quadrinhos", a falência da Marvel e a perda de uma grande parcela do público, o campo criativo também passava por maus bocados: obras seminais como Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas ainda influenciavam novas revistas de super-herói, mas não da forma almejada por seus criadores. Apenas a estética e temas superficiais como a violência e a sensualidade foram absorvidos pelos roteiristas e desenhistas em destaque à época, que passaram a apresentar, em regra, tramas fracas, tentando se passar por adultas ao mostrar armas, tiroteios e conspirações aliados a assuntos polêmicos como violência sexual ou suicídio, mas sem nunca se aprofundar em nenhum deles; enquanto as artes eram de cair o queixo, embora sempre sexualizadas. Tudo isso envolto em uma atmosfera de cinismo e trevas, afastando-se do que os gibis foram um dia.

Havia exceções, como sempre há. Esta também foi época do surgimento da linha Vertigo, apresentando títulos subversivos e de temática adulta como Sandman, Preacher e Hellblazer, que fizeram história por sua inventividade, inovação e críticas sociais sempre inerentes. No âmbito superheroico, a Marvel chafurdava em um mar de histórias ruins, salvando-se apenas as sagas cósmicas escritas por Jim Starling, uma ou outra revista dos X-Men e a minissérie Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross. A situação na DC não era muito diferente já que, enquanto o Universo da Milestone Media ia passando quase despercebido pelo público, a linha principal apresentava em especial o Flash de Mark Waid e o recém-iniciado Starman de James Robinson como os principais frescores quando se tratava do revigoramento dos conceitos clássicos de heroísmo para tempos mais modernos.

Alguns dos nomes citados foram essenciais para o que gosto de chamar de "O Retorno dos Clássicos". Um jovem Alex Ross, por exemplo, após o sucesso de Marvels, restabeleceu a parceria com Kurt Busiek para, junto ao desenhista Brent Anderson, criar a longeva Astro City, com todo seu teor de homenagem aos super-heróis, na Image Comics. Ross também tinha uma ideia semelhante a da minissérie publicada pela Casa das Ideias para a DC, resgatando alguns conceitos de Crepúsculo dos Super-Heróis (o trabalho perdido de Alan Moore), e resolveu apresentá-las para James Robinson que, além de Starman, havia tido bastante sucesso com A Era de Ouro, uma história que apresentava os personagens da Sociedade da Justiça em um contexto mais adulto e desconstrucionista durante o pós-Guerra. Robinson gostou da ideia e aconselhou Ross a procurar por seu amigo Mark Waid, um exímio conhecedor da cronologia da Editora das Lendas e, tal qual o artista, um grande entusiasta da Era de Prata dos quadrinhos.

Foi neste contexto e através desta quase mística união de esforços que nasceu Reino do Amanhã, a mais importante obra da DC durante a década de 1990 e uma das leituras essenciais do período. Lançada originalmente em 1996 através do selo Elseworlds (conhecido aqui no Brasil como Túnel do Tempo) em quatro edições, a história se passa no futuro de uma realidade alternativa ao universo regular das revistas de linha, apresentando versões mais velhas de seus principais personagens, quando não os filhos ou herdeiros de seus mantos, em uma representação do conceito de legado, um dos grandes diferenciais da editora, extrapolado ao seu máximo. E embora a minissérie englobe uma larga variedade de heróis conhecidos do público, em especial os bastiões formadores da Liga da Justiça, seu foco, como não poderia deixar de ser, é voltado ao primeiro de todos, o Superman.

O retorno triunfal.

Na trama, situada em um mundo em que os velhos super-heróis saíram de cena ou passaram a atuar nas sombras após um terrível incidente, tendo sido substituídos por uma nova onda de personagens cuja moral trilha um perigoso caminho em que justiça e violência desmedida se confundem, acompanhamos o pastor Norman McCay e Espectro, o Espírito de Vingança, em uma jornada para testemunhar uma enorme catástrofe de proporções apocalípticas, com a qual McCay já vinha tendo visões, sem entender muito bem do que se tratava. Enquanto isso, o Superman, após uma visita instigante da Mulher-Maravilha, enxerga o caos em que a sociedade se encontrava mergulhada e resolve sair da aposentadoria para trazer a justiça e a ordem novamente ao planeta, independente do custo, convocando assim alguns de seus velhos aliados junto a representantes da nova geração que estivessem dispostos a seguir sua visão e orientação.

Em meio a intrigas, reviravoltas e paralelos com citações bíblicas do livro do Apocalipse, o enredo se desenvolve ao mostrar a equipe liderada pelo Homem de Aço tomando decisões cada vez mais autocráticas como forma de assegurar a paz e os velhos costumes através do fim forçado da criminalidade, sempre com a orientação de uma Mulher-Maravilha menos diplomática e mais agressiva do que antes, observada por um Superman que, embora execute as ideias dadas pela Amazona, não se sente 100% seguro quanto ao benefício delas. Neste ínterim, outros grupos começam a se movimentar para que seus interesses se concretizem em meio a este cenário, como é o caso da Frente de Libertação da Humanidade, formada pelos antigos vilões e liderada por ninguém menos que Lex Luthor, além de um novo time de Renegados juntado pelo Batman e também os novos heróis que preferem manter seus métodos radicais, que tem sua principal face em Magog, grande antagonista da história. Os ânimos se acirram quando o kryptoniano e seus aliados decidem pela construção do complexo prisional chamado de Gulag, o que acaba a acarretar um confronto que termina com a literal morte da inocência dos gibis do passado.

O trabalho desenvolvido por Waid e Ross pode ser enxergado através de duas óticas que podem render diferentes interpretações, ambas honestas. Uma delas é a de um leitor leigo, que o encara como uma grande história de super-heróis que levanta questões filosóficas, reimagina o universo DC de forma plausível dentro de seu próprio contexto e apresenta uma mensagem de otimismo e esperança para o futuro. A outra é a do leitor veterano, que consegue enxergar o mesmo que o colega recém-iniciado, mas também entende que Reino do Amanhã é uma espécie de manifesto contra o estado em que os gibis estadunidenses se encontravam na década de 1990 ao exercitar seus conhecimentos sobre o contexto da época e as principais editoras do mercado. Isso é algo dito e reiterado pelos próprios criadores, seja no tempo do lançamento ou nos anos que se seguiram, e que se torna explícito tanto pelo teor da obra, quanto pelo visual de muitos dos novos personagens, como é o caso de Magog, claramente inspirado em Cable, dos X-Men, ou do Americommando que, como dito pela dupla, é "o Capitão América se tivesse sido criado pelo Rob Liefield".

Uma nova era para os velhos heróis.

A arte de Alex Ross, vale ressaltar, caiu como uma luva para o teor da história. Seu estilo realista, aliado ao texto rico e valoroso de Mark Waid, consegue aliar o clássico ao moderno e dá ao quadrinho o tom imponente necessário para seu impacto e êxito, especialmente no que diz respeito aos super-heróis, que não poucas vezes são retratados como deuses ao melhor estilo greco-romano, elevando ainda mais a figura de tamanhos ícones da cultura pop mundial e alçando-os a um lugar em um panteão inalcançável. Mesmo as cenas de ação, que exigem maior sensação de fluidez e são alvo das principais críticas ao trabalho do artista, entregam a dinamicidade necessária e se saem bem no resultado final. É de se destacar, ainda, a composição das cenas e desenvolvimento dos visuais dos personagens, os quais ficaram todos a seu encargo, trazendo ideias interessantes para uniformes que certas vezes acabaram sendo incorporados ao universo regular, como é o caso do Robin Vermelho. E, como curiosidade, é justo informar que o visual do pastor Norman McCay é inspirado no pai de Ross, que serviu como modelo para seus desenhos.

Conforme dito anteriormente, a obra envolve basicamente todo o universo da DC, mas seu grande protagonista é o Superman. Tal destaque não é mero acaso, já que ele, na posição de primeiro super-herói já criado e, consequentemente, grande arquétipo do gênero, acaba por ser a incorporação antigos valores e tradições dos velhos gibis, algo que fica claro na história, especialmente em seu confronto com Magog, representante do que havia de novo. Ao mesmo tempo, é interessante ver durante o avançar da trama que, apesar de seu coração estar no lugar certo, sua cabeça não está e sua visão, tão presa ao modo que o mundo era outrora, acaba por levá-lo a tomar decisões equivocadas que levam a um resultado final irremediável. E é por isso que, ao final, ele cresce e muda sua postura de combativa para humanitária, o que é seguido pelos demais heróis, que passam a ajudar o mundo de outras formas. Esta visão acabou por definir o papel dos personagens na vida real dali em diante, com as boas histórias criadas desde então refletindo-a.

Reino do Amanhã foi lançada em diversos formatos ao redor do mundo. No Brasil, especificamente, saiu como minissérie em quatro edições separadas pela em 1997 e encadernado em 1998, ambos pela Editora Abril. A encadernação foi relançada em 2004 pela Panini que, a partir de 2013, passou a adotar o formato de luxo da publicação, o qual se encontra disponível em lojas e livrarias neste momento. Recheado de extras, conta com um enorme posfácio detalhando muitos dos aspectos do processo criativo, além de apresentar páginas extras que não constavam nas primeiras versões, como é o caso das cenas do Superman em Apokolips conversando com Orion e do epílogo no restaurante Planeta Krypton, que se encaixou perfeitamente com o resto da história e só intensificou sua mensagem.

O cenário dos quadrinho de super-herói estadunidense estavam salvos graças ao Superman e, principalmente, a Mark Waid e Alex Ross. Ou pelo menos até a chegada de uma nova "ameaça"... Mas isso é assunto para outra hora.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Resenha de UM parágrafo sobre "OS JOVENS TITÃS EM AÇÃO! NOS CINEMAS"!


Tal como a série animada que lhe deu origem, Os Jovens Titãs Em Ação! Nos Cinemas é transgressivo em relação a tudo o que já foi feito anteriormente com os personagens ou a equipe em qualquer mídia, deixando de lado grandes clichês superheroicos, dramas e romances adolescentes em prol de um humor às vezes subvertido, às vezes escrachado, mas que no fim não poupa ninguém (especialmente o próprio Universo DC, mas sem se esquecer da concorrência ou mesmo de outras grandes franquias do cinema). Cenas de ação dinâmicas e números musicais dão sustância à história para justificar um longa-metragem, que é então tomado por uma vasta gama de absurdos divertidíssimos que desafiam os limites do que já é conhecido por desenho animado pelo público. São muitas também as aparições de personagens e referências à Editora das Lendas, com destaque à reinterpretação do vilão Exterminador para este mundo que não se leva nem um pouco a sério. Acredite ou não, mas este é um dos melhores filmes lançados pela DC Entertainment desde a conclusão da trilogia O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, ao lado de Mulher-Maravilha e LEGO Batman - O Filme.

TRAILER:

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A abertura remasterizada de "Batman: A Série Animada" é a coisa mais bonita que você verá hoje


Poucas adaptações transmídia foram tão bem-sucedidas quanto Batman: A Série Animada. O desenho concebido por Bruce Timm e Eric Radomski foi desenvolvido com esmero pelas mãos da dupla em parceria com outros grandes nomes, como Paul Dini, Alan Burnett, Michael Reeves, Boyd Kirkland, Kevin Altieri, Dan Riba etc e marcou época durante a década de 1990, habitando as lembranças especialmente das crianças e adolescentes de então e sendo até hoje a principal referência quando o assunto são as aventuras do Homem-Morcego fora das páginas dos gibis, mesmo com a forte concorrência da série de games Batman: Arkham ou a trilogia de filmes O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.

Tive a oportunidade de reassistir ao programa na íntegra recentemente e posso dizer que essa posição é mais que merecida. A qualidade e fluidez empregada no traço e na animação chega a impressionar, tendo se tornado referência para tudo o que foi produzido na sequência e ainda sendo uma influência na atualidade. O mesmo pode ser dito a respeito dos roteiros, que contam com tramas bem-estruturadas e que muitas vezes tratam de temas importantes, seja para o mundo real ou acerca do próprio universo de seu protagonista, ao mesmo tempo que são acessíveis sem desrespeitar, em momento algum, a inteligência de seu espectador, seja ele criança, adolescente ou adulto. A criação da atmosfera da série, que alia elementos antigos a contemporâneos em um clima soturno, e o trabalho de dublagem, tanto em inglês quanto em português, fecham o pacote com qualidade. Não é loucura dizer que algumas das melhores histórias do herói foram contadas no programa, como é o caso de episódios como Quase O Peguei ou O Julgamento, entre muitos outros, além de ter sido responsável por redefinir as origens de antagonistas como o Sr. Frio e o Cara-de-Barro.

Os fãs e entusiastas da animação receberam uma notícia muito boa nos últimos meses: o seu relançamento completo em Blu-Ray, em um box que contará com todos os seus 109 episódios (o que inclui As Novas Aventuras do Batman), os longas Batman: A Máscara do Fantasma (que se encontra atualmente disponível na Netflix) e Batman & Mr. Freeze: Abaixo de Zero, um documentário sobre os bastidores de Batman: A Série Animada e três Funko Pop! inspirados no desenho. Com o lançamento da edição, marcado para 30 de outubro, aproximando-se, a Warner divulgou um vídeo de encher os olhos contendo a versão remasterizada da antológica abertura do programa, o qual pode ser conferido a seguir:



A título de curiosidade, a IGN comparou as versões antiga e remasterizada do vídeo e, como é possível se observar abaixo, há uma diferença gritante entre elas, não apenas na nitidez da exibição, mas também na quantidade de frames que cada uma apresenta, mostrando que o trabalho que vem sendo feito é mais do que bem-vindo:


Infelizmente, ainda não há previsão para o lançamento de Batman: A Série Animada em Blu-Ray aqui no Brasil. Assim que acontecer, no entanto, sentirei a obrigação de conferir mais uma vez a animação do início ao fim. Não que seja um grande sacrifício.

Box contendo todo o conteúdo da edição especial de Batman: A Série Animada em Blu-Ray. Lindo, não?

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #1: "Superman: Identidade Secreta"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, uma HQ que acalentou meu coração e se tornou uma das minhas favoritas de todos os tempos.

Esta não é uma história convencional do Superman. Não há grandes vilões com planos mirabolantes, invasões alienígenas ou pancadarias desenfreadas. Está mais para uma história sobre o Superman, o seu mito e sua importância. É também uma história sobre Clark Kent, mas não aquele que estamos acostumados. Clark é um adolescente que vive no interior dos Estados Unidos e, como qualquer pessoa de sua idade, tudo o que menos quer é ser incomodado ou atrair atenção indesejada, mas é exatamente o que ele consegue graças a seu nome. Seus bem-humorados pais acharam que seria uma boa ideia fazer do filho um homônimo de um dos maiores ícones da Cultura Pop, afinal ele já seria automaticamente famoso e teria muitos produtos com seu nome estampado, e os parentes embarcaram na brincadeira, presenteando o garoto com tudo relacionado ao Superman em qualquer data possível. E ele odeia tudo aquilo: as recorrentes brincadeiras, o merchandising e, consequentemente, o herói.

Até que, de repente, tudo muda. Em uma noite relaxando sob a luz do luar, habilidades incomuns despertam. Voo, superforça, resistência sobre-humana. Ele agora tem alguns dos principais poderes do Superman, e sua vida nunca mais foi a mesma desde então.


Superman: Identidade Secreta se dá a partir desta premissa. Durante a história, acompanhamos a vida deste rapaz que mora em um mundo similar ao nosso, em que o Superman é um personagem, mas que vive a mais inusitada das situações e quer descobrir seu lugar no meio disso tudo. Ao mesmo tempo, tem que lidar com os mesmos dilemas que qualquer outra pessoa, como problemas na escola, a definição da carreira profissional, seus relacionamentos amorosos, a constituição de uma família, além, é claro, das recorrentes piadas com seu nome, que o acompanham aonde quer que ele vá. E tudo isso enquanto mantém o máximo de discrição possível durante seus atos heroicos, para não que não seja identificado por ninguém, especialmente pelo governo estadunidense, que se interessou nos boatos sobre sua existência.

O quadrinho se divide em quatro edições e cada uma delas retrata um período da jornada de Clark: a adolescência, o início da vida adulta, o estabelecimento de sua própria família e a chegada da velhice. Cada uma destas passagens apresenta uma diferente perspectiva do protagonista acerca do mundo que o cerca, seus relacionamentos e o modo com que lida com seus poderes. Vemos, literalmente, ele crescer, amadurecer, aprender com suas experiências e mudar suas prioridades de acordo com cada acontecimento. A narração em primeira pessoa constrói a ponte que aproxima o leitor de seu interlocutor, mas é a forma natural com que cada diferente situação é tratada que permite a identificação e acaba conquistando através de toda a humanidade ali existente. Mérito total para a construção do roteiro de Kurt Busiek, que traduz o comum através do extraordinário e ainda faz com que haja um sentimento de amizade e cumplicidade entre o personagem principal e quem o acompanhou durante seus mais essenciais momentos.

A HQ ainda traz em seu subtexto comparações entre a versão mais popular do Superman e a sua própria. Muitas são as diferenças entre eles: se o herói clássico é confiante, decidido e se relaciona facilmente, o Clark Kent aqui apresentado é mais introvertido, reflexivo e tem seus medos, preocupações e incertezas sobre os tortuosos caminhos da vida, o que o torna mais palatável para o público. Ao mesmo tempo, ambos compartilham um senso de responsabilidade e a necessidade de fazer o que é certo com seus poderes, sendo guiados por uma inabalável moral e nobreza em seus atos, sempre se arriscando para salvar as vidas daqueles em situações desesperadas. Fica no ar o quanto disso Clark tirou das páginas dos gibis do Superman e quanto é inerente a si e sua criação, mas tendo em vista que ele se baseia no personagem para fazer algumas escolhas (ainda que pontuais) no decorrer da trama, é possível entender que tudo aquilo que sempre foi motivo de zoação durante toda sua vida acabou por servir como bússola nas horas mais importantes.


Impossível, porém, deixar de falar da arte de Identidade Secreta, essencial para fazer da obra o que ela é. Quem conhece o trabalho de Stuart Immonen conhece seu imenso talento e versatilidade, capaz de adaptar seu traço dependendo do estilo da história em que está envolvido. Aqui, Immonen emprega um desenho com ares realistas, mas ao mesmo tempo limpos e leves, o que, aliado a sua singular noção de perspectiva e senso de movimento, acaba por fazer deste um dos quadrinhos mais belos visualmente já feitos, cheio de vida e com quadros e splash-pages dignos de serem emoldurados e expostos em museus ou exposições.

São muitos os destaques que ainda podem ser feitos sobre Superman: Identidade Secreta, sejam as boas sacadas e homenagens feitas acerca dos métodos de Clark para não ser identificado por ninguém, a semelhança de algumas pessoas ao seu redor com integrantes dos enredos do Superman nos gibis, ou alguns pontos que acabariam por revelar importantes detalhes da trama. O importante, no entanto, é perceber a importância do Homem de Aço para a trama, ainda que indiretamente, com sua aura de bondade e ética sendo refletida a cada decisão tomada pelo protagonista. Esta é, de fato, uma história sobre o Superman e, mais do que isso, é também uma história sobre a vida, em toda sua beleza.