sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Triste com o filme do Venom? Pelo menos a atual HQ dele é muito boa!


Queira ou não, goste ou não, o Venom é um dos personagens mais populares que saiu das páginas dos quadrinhos do Homem-Aranha. Surgido como vilão no final dos anos 1980 e transformado em anti-herói graças a seu crescente apelo nas histórias do aracnídeo, a criação de Todd McFarlane e David Michelinie já passou por diversas fases (chegando até a integrar os Guardiões da Galáxia) e seu simbionte já fez par com diversos hospedeiros, mas sempre é lembrado pelo original, Eddie Brock, e o clima de terror e violência que marcaram sua primeira aparição. O impacto de seu surgimento foi grande o suficiente para angariar fãs e levá-lo até as telas do cinema pela primeira vez como um dos antagonistas de Homem-Aranha 3, em 2007, e retornar neste como protagonista de Venom, sua primeira empreitada solo que, por escolha dos produtores, mostra-se isolado do universo do herói que o colocou nos holofotes.

Infelizmente, apesar de estar indo bem nas bilheterias, seu filme autointitulado acabou não vivendo às expectativas, decepcionando tanto crítica quanto público, que se depararam com uma história desorganizada que não foge do básico, momentos bizarros e efeitos especiais pouco convincentes, de modo que nem mesmo as boas atuações do competente elenco conseguem se sobressair às inúmeras falhas. É uma pena e um desperdício, de fato. No entanto, nem tudo são más notícias quando se trata do personagem: Venom vive uma de suas melhores fases nas páginas das revistas em quadrinhos, com roteiros de Donny Cates e desenhos de Ryan Stegman, dois talentos em ascensão que vêm ganhando cada vez mais espaço na Marvel.

Logo na primeira edição da HQ já é possível perceber o quão diferenciada ela é: tudo se inicia com Brock tendo sonhos estranhos situados na Idade Média, em que ouve um idioma que não consegue identificar. Ao acordar, encontra o simbionte acuado, sem entender o que está acontecendo ao certo. Ainda assim, resolvem sair para patrulhar e tentar salvar algumas vidas. É a partir daí que as coisas ficam ainda mais interessantes: o parasita alienígena foge do controle em um confronto, Eddie descobre que o "seu outro" (como ele carinhosamente chama o organismo extraterrestre com quem divide o corpo) não foi o primeiro a aparecer na Terra e parte em busca dos velhos companheiros de equipe de um ex-agente da SHIELD que conhece entre estes acontecimentos.

Parece loucura, não? Pois essa pegada se mantém nos números seguintes, adicionando cada vez mais elementos absurdos. Mentes conectadas, dragões intergaláticos, deuses do abismo, ligações com a origem do universo e os Celestiais, a guerra do Vietnã... É possível encontrar tudo isto e mais um pouco em Venom. E o mais impressionante é que FAZ TOTAL SENTIDO. O trabalho de Cates na criação e desenvolvimento da trama consegue encaixar os mais variados elementos das principais fases do personagem (e até de outros, como é o caso do Thor) e combiná-los com criações próprias para trazer a tona uma mitologia rica e que faz jus às raízes do antigo vilão do Homem-Aranha. Ao mesmo tempo, não se esquece de entreter o leitor e equilibra o desenrolar da história com cenas de ação frenéticas ao lado de Stegman que, apesar de apresentar uma arte ligeiramente confusa em alguns momentos, entrega grandiosidade e exagero sempre exigido dele.

O gibi vem se destacando nos Estados Unidos, com inúmeros elogios dos veículos especializados edição após edição, além de ter conquistado uma boa base de fãs, que provavelmente foi formada pelos incansáveis fanáticos pelo anti-herói, apreciadores de uma boa leitura e quem entrou no hype do filme e acabou se deparando com uma ótima publicação. Curiosamente ou não, a revista triunfa exatamente nos aspectos que o recente longa falhou, apresentando uma trama coerente e que foge (muito) do lugar comum, momentos que surpreendem e um bom trabalho artístico. Ryan Stegman declarou uma vez que "Venom era melhor que Watchmen", algo que rapidamente foi abraçado pelos leitores. Uma brincadeira, claro, mas seu trabalho ao lado de Donny Cates vem se mostrando de altíssimo nível e não é exagero dizer que a dupla está fazendo uma das melhores HQs atualmente disponíveis no mercado, a qual certamente já marcou a história do personagem.

Acredite: este é só o início das pirações que acontecem em "Venom". Ficou curioso? Vá ler a HQ!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

BALANÇO MUSICAL - Setembro de 2018


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Setembro foi... estranho. Não que tenha sido ruim, mas também não foi exatamente bom. Um pouco de diversão, alguns reencontros e desencontros, uma ou outra surpresa e três péssimos dias ao final do mês, somados à velocidade com que tudo se passou, fizeram dele um período esquecível, quiçá insosso e deixou a sensação de tempo perdido. Não que eu estivesse esperando que qualquer coisa fosse acontecer, pelo contrário, mas é estranho que tenha sido tão vazio depois de épocas recentes bem mais agitadas e/ou atarefadas. Espero não ter que me acostumar com essa nova realidade, mas infelizmente não é algo que descarto, ao menos para o futuro próximo.

Tratando-se de música, no entanto, o papo é outro. Sei que já está ficando chato vir aqui e dizer isso em praticamente toda postagem desde abril deste ano (a exceção sendo junho), mas setembro foi mais um mês em que bati meu recorde de músicas ouvidas e todo o resto. Apenas um foi mantido: o de maior número de reproduções em um único dia (132), que consegui em agosto; por outro lado, o segundo lugar acabou sendo renovado três vezes, com 109, 110 e 112 composições escutadas. De resto, foram 2.462 scrobbles realizados em meu last.fm (uma média diária de 82), contando com 596 artistas, 961 álbuns e 1.986 faixas diferentes. Um ritmo muito elevado, talvez quase doentio, de consumo musical, que tem me feito pensar muito em sua qualidade e aproveitamento em relação a tamanha quantidade. Provável que eu dê uma pisada no freio nos próximos meses.

De qualquer forma, sempre há o que consiga se distinguir no meio de tamanhos números, e é valido comentar sobre eles em meus DESTAQUES DO MÊS, que podem ser vistos logo a seguir.

ARTISTAS DO MÊS:

- Paul McCartney: o maior músico vivo lançou um novo trabalho neste mês e, além de conferi-lo repetidas vezes, acabei me aventurando mais uma vez em alguns dos feitos mais antigos de sua prolífica e rica carreira solo. E é como digo: Sir Paul nunca é demais.

- Eric Clapton: "Clapton is God", eles dizem. E não estão errados. Pelo terceiro mês seguido, o bluesman marca presença aqui no Balanço Musical, desta vez representado por Run So Far, que conta com a participação do beatle George Harrison, que foi um de seus melhores amigos.

- Adrian Smith and Project: o ASAP, abreviação do nome do grupo (que só coloquei de forma completa por ser assim que se encontra no Spotify), é uma das bandas que carrego no coração. O projeto do guitarrista Adrian Smith, conhecido por seu trabalho no Iron Maiden, é pouco conhecido, mas repleto de qualidade. De curta duração, rendeu apenas um álbum e dois singles, os quais estão todos disponíveis no serviço de streaming (e espero que nos concorrentes também), algo que encheu meu coração de felicidade com a descoberta. Vão conferir!

ÁLBUNS DO MÊS:

- Beth Hart & Joe Bonamassa - Black Coffee (2018): o terceiro trabalho da talentosa dupla é, novamente, um compilado de reinterpretações de algumas de suas principais influências, focadas especialmente no Rhythm & Blues, Jazz e Blues Rock. E isso não faz dele ruim, pelo contrário. O poder da voz de Hart e a habilidade mais que conhecida de Bonamassa faz do registro um deleite para os ouvidos.

- Paul McCartney - Egypt Station (2018): o mais novo disco solo do beatle vem recheado de experimentações e sonoridades com ares modernos, mas que consegue soar clássico ao mesmo tempo, com diversos acenos aos sons praticados pelos Beatles ou Wings. É mais um atestado da genialidade incomparável de McCartney, que novamente se prova relevante e mostra que ainda tem muita lenha para queimar. Um músico sem igual, seja ontem ou hoje.

- Slash feat. Myles Kennedy And The Conspirators - Living The Dream (2018): apesar de ter dividido a crítica, o mais novo trabalho do eterno guitarrista do Guns N' Roses me convenceu (bem mais que seu cansativo antecessor, World On Fire). A impressão que ficou foi a de um disco conciso, com boa variação entre faixas agressivas com outras mais melódicas, além do entrosamento já esperado do grupo. Talvez precise escutar mais vezes mas, pelo menos por ora, digo que gostei.

- Elise LeGrow - Playing Chess (2018): tomei contato com o álbum de estreia da vocalista recentemente, através de uma playlist, e fiquei surpreso com o resultado. O belo registro tem a força de LeGrow à frente de uma competente banda que pratica uma poderosa mistura de Jazz, Blues e pitadas de Pop, cativando o ouvinte com sua qualidade e talento.

- The Vintage Caravan - Gateways (2018): um interessante trabalho do grupo islandês, com uma pegada que varia entre o psicodélico, o progressivo e o clássico, mas sem cair nas armadilhas de apenas emular o que já foi feito e que oferece algo de fato bom e atual pra a cena atual. Há algumas grandes músicas neste CD.

- Clutch - Book of Bad Decisions (2018): conheci o disco graças a uma recomendação em um grupo de Facebook que participo, e fico feliz que ela tenha me apresentado a este colosso. O Clutch é uma banda quase desconhecida no Brasil, mas que definitivamente merece mais atenção. Um Rock impactante e de muita qualidade técnica faz deste mais um dos candidatos à lista de melhores do ano.

- Sepultura - Chaos A.D. (1993): este clássico do Metal brasileiro e mundial completou 25 anos no último dia 2 de setembro, e nada mais justo do que dar a ele espaço tanto na playlist quanto aqui. E nem preciso falar nada sobre a qualidade, certo? Se você ainda não conhece, corra e ouça!

- Ringo Starr - Ringo (1973): e quem diria que o beatle mais esquecido pelo público ganharia espaço por aqui? O fato é que ele merece este reconhecimento. Ringo, seu terceiro trabalho solo, é um discaço ao nível do que foi feito por seus ex-companheiros de banda após a separação, e vale dizer que todos eles participam de ao menos uma de suas faixas. Com um pouco de imaginação, dá para dizer que este é um álbum dos Beatles gravado durante a década de 1970.

- UFO - Phenomenon (1973): acredite ou não, mas eu nunca tinha ouvido este clássico. E como eu me arrependo de não ter conhecido-o antes. Um disco atemporal, sonoridade riquíssima e elementos que notavelmente influenciaram grupos como Judas Priest e Iron Maiden. Não faça como eu e vá conferi-lo o mais rápido possível.

MÚSICAS DO MÊS:

- Puffy AmyYumi - Teen Titans Theme: o tema de abertura do antológico desenho dos Jovens Titãs é algo que ficou para a história das animações de super-heróis, e não a toa uma versão remixada de um trecho seu também é introdução de Os Jovens Titãs em Ação!, a versão mais voltada à comédia dos personagens. Na playlist, pontua o dia em que fui assistir Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas e, embora pudesse ter usado uma das faixas da divertidíssima trilha do longa, achei que esta seria mais emblemática.

- Queen - Who Wants To Live Forever: minha singela homenagem à Freddie Mercury, que teria completado 72 anos em 6 de setembro se ainda estivesse vivo. Sua presença física pode não estar mais entre nós, mas sua persona e voz são imortais.

- Roger Waters - Home: outra homenagem, desta vez ao vocalista e baixista que integrou o Pink Floyd até 1983 e que segue uma ótima carreira solo desde então.

- Adrian Belew feat. David Bowie - Pretty Pink Rose: essa é uma música que eu já havia escutado algumas vezes em minhas Descobertas da Semana do Spotify e que felizmente consegui encaixar aqui, já que é divertida e repleta de qualidade.

- Joan Jett & The Blackhearts - You Don't Own Me: uma forma de celebrar a entrada da discografia completa da lendária Joan Jett no catálogo do Spotify, além de ser a música que encerrou a primeira temporada de The Handmaid's Tale e, curiosamente, eu a escutei no mesmo dia das passeatas das Mulheres contra Bolsonaro. #EleNão

- Rollin' (Air Raid Vehicle), Blue Sky Mine, Magic, Mr. Roboto: todas músicas que eu estava segurando há tempos para, um dia, incluir em uma de minhas listas, e felizmente consegui encaixar todas elas desta vez.

Confira a playlist feita durante setembro de 2018:

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Capitã Marvel vem aí para chutar nossas bundas (ao som de Pearl Jam após alugar uma fita VHS)


Sorriam, fãs da Marvel ao redor do mundo! Após anos clamando por um filme solo de alguma de suas principais heroínas (algo que já deveria ter acontecido há tempos com, no mínimo, a Viúva Negra), está chegando o dia de o estúdio finalmente entregar uma de suas mais aguardadas adaptações desde seu anúncio no fim de 2014: Capitã Marvel. O longa, que já deveria ter sido lançado em julho deste ano de acordo com o planejamento inicial, finalmente chegará aos cinemas brasileiros em 7 de março de 2019, com estreia estrategicamente marcada nos EUA e demais mercados no dia subsequente, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Após a divulgação das primeiras imagens e detalhes através da Entertainment Weekly, hoje foi a vez de mostrar o primeiro pôster e trailer, revelados durante a participação da atriz Brie Larson, que dá vida à protagonista, no programa estadunidense Good Morning America. Simples e pouco reveladores, porém poderosos, os materiais promocionais deixam uma mensagem bem clara: a Marvel Studios não está para brincadeiras, seja no que diz respeito à introdução daquela que promete ser a principal super-heroína de seu universo cinematográfico, seja para enfrentar a competição e possíveis comparações da DC que, além de Shazam! (o Capitão Marvel original), também tem marcada a estreia de Mulher-Maravilha 1984 para o próximo ano.

A prévia dá pistas do que esperar do filme, porém. Amnésia, passado como piloto de caças militares, natureza alienígena dos poderes, fica claro que, como era de se esperar, a origem de Carol Danvers será diferente da vista nos quadrinhos, deixando de lado a identidade super-heroica de Ms. Marvel (o que deixa aberta a possibilidade da introdução de Kamala Khan em um futuro próximo) e já indo direto aos finalmentes, com a presença da Carol Corps., capacete com moicano e as habilidades cósmicas de quando foi conhecida por Binária. Ao mesmo tempo, muita ação aliada ao clima típico dos anos 1990, época em que o longa se situa (com direito até à presença de uma loja da rede de videolocadoras BlockBuster), acabam por remeter à clássicos como Exterminador do Futuro 2 e Duro de Matar 2 e 3. E vale ainda o destaque para o jovem Nick Fury, a participação de Jude Law (que suspeito que será a versão cinematográfica de Mar-Vell) e, como não poderia deixar de ser, a cena em que a personagem-título dá um soco em uma velhinha, provavelmente um Skrull disfarçado, como já apontado por vários sites.

Confira abaixo o primeiro trailer de Capitã Marvel:


De quebra, fique também com o belo primeiro pôster do filme:

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #2: "Reino do Amanhã"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, uma HQ em que os heróis de outrora tiveram que crescer.

A década de 1990 foi um período conturbado para a indústria de HQs estadunidense. Enquanto a parte mercadológica sofreu com a "Bolha dos Quadrinhos", a falência da Marvel e a perda de uma grande parcela do público, o campo criativo também passava por maus bocados: obras seminais como Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas ainda influenciavam novas revistas de super-herói, mas não da forma almejada por seus criadores. Apenas a estética e temas superficiais como a violência e a sensualidade foram absorvidos pelos roteiristas e desenhistas em destaque à época, que passaram a apresentar, em regra, tramas fracas, tentando se passar por adultas ao mostrar armas, tiroteios e conspirações aliados a assuntos polêmicos como violência sexual ou suicídio, mas sem nunca se aprofundar em nenhum deles; enquanto as artes eram de cair o queixo, embora sempre sexualizadas. Tudo isso envolto em uma atmosfera de cinismo e trevas, afastando-se do que os gibis foram um dia.

Havia exceções, como sempre há. Esta também foi época do surgimento da linha Vertigo, apresentando títulos subversivos e de temática adulta como Sandman, Preacher e Hellblazer, que fizeram história por sua inventividade, inovação e críticas sociais sempre inerentes. No âmbito superheroico, a Marvel chafurdava em um mar de histórias ruins, salvando-se apenas as sagas cósmicas escritas por Jim Starling, uma ou outra revista dos X-Men e a minissérie Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross. A situação na DC não era muito diferente já que, enquanto o Universo da Milestone Media ia passando quase despercebido pelo público, a linha principal apresentava em especial o Flash de Mark Waid e o recém-iniciado Starman de James Robinson como os principais frescores quando se tratava do revigoramento dos conceitos clássicos de heroísmo para tempos mais modernos.

Alguns dos nomes citados foram essenciais para o que gosto de chamar de "O Retorno dos Clássicos". Um jovem Alex Ross, por exemplo, após o sucesso de Marvels, restabeleceu a parceria com Kurt Busiek para, junto ao desenhista Brent Anderson, criar a longeva Astro City, com todo seu teor de homenagem aos super-heróis, na Image Comics. Ross também tinha uma ideia semelhante a da minissérie publicada pela Casa das Ideias para a DC, resgatando alguns conceitos de Crepúsculo dos Super-Heróis (o trabalho perdido de Alan Moore), e resolveu apresentá-las para James Robinson que, além de Starman, havia tido bastante sucesso com A Era de Ouro, uma história que apresentava os personagens da Sociedade da Justiça em um contexto mais adulto e desconstrucionista durante o pós-Guerra. Robinson gostou da ideia e aconselhou Ross a procurar por seu amigo Mark Waid, um exímio conhecedor da cronologia da Editora das Lendas e, tal qual o artista, um grande entusiasta da Era de Prata dos quadrinhos.

Foi neste contexto e através desta quase mística união de esforços que nasceu Reino do Amanhã, a mais importante obra da DC durante a década de 1990 e uma das leituras essenciais do período. Lançada originalmente em 1996 através do selo Elseworlds (conhecido aqui no Brasil como Túnel do Tempo) em quatro edições, a história se passa no futuro de uma realidade alternativa ao universo regular das revistas de linha, apresentando versões mais velhas de seus principais personagens, quando não os filhos ou herdeiros de seus mantos, em uma representação do conceito de legado, um dos grandes diferenciais da editora, extrapolado ao seu máximo. E embora a minissérie englobe uma larga variedade de heróis conhecidos do público, em especial os bastiões formadores da Liga da Justiça, seu foco, como não poderia deixar de ser, é voltado ao primeiro de todos, o Superman.

O retorno triunfal.

Na trama, situada em um mundo em que os velhos super-heróis saíram de cena ou passaram a atuar nas sombras após um terrível incidente, tendo sido substituídos por uma nova onda de personagens cuja moral trilha um perigoso caminho em que justiça e violência desmedida se confundem, acompanhamos o pastor Norman McCay e Espectro, o Espírito de Vingança, em uma jornada para testemunhar uma enorme catástrofe de proporções apocalípticas, com a qual McCay já vinha tendo visões, sem entender muito bem do que se tratava. Enquanto isso, o Superman, após uma visita instigante da Mulher-Maravilha, enxerga o caos em que a sociedade se encontrava mergulhada e resolve sair da aposentadoria para trazer a justiça e a ordem novamente ao planeta, independente do custo, convocando assim alguns de seus velhos aliados junto a representantes da nova geração que estivessem dispostos a seguir sua visão e orientação.

Em meio a intrigas, reviravoltas e paralelos com citações bíblicas do livro do Apocalipse, o enredo se desenvolve ao mostrar a equipe liderada pelo Homem de Aço tomando decisões cada vez mais autocráticas como forma de assegurar a paz e os velhos costumes através do fim forçado da criminalidade, sempre com a orientação de uma Mulher-Maravilha menos diplomática e mais agressiva do que antes, observada por um Superman que, embora execute as ideias dadas pela Amazona, não se sente 100% seguro quanto ao benefício delas. Neste ínterim, outros grupos começam a se movimentar para que seus interesses se concretizem em meio a este cenário, como é o caso da Frente de Libertação da Humanidade, formada pelos antigos vilões e liderada por ninguém menos que Lex Luthor, além de um novo time de Renegados juntado pelo Batman e também os novos heróis que preferem manter seus métodos radicais, que tem sua principal face em Magog, grande antagonista da história. Os ânimos se acirram quando o kryptoniano e seus aliados decidem pela construção do complexo prisional chamado de Gulag, o que acaba a acarretar um confronto que termina com a literal morte da inocência dos gibis do passado.

O trabalho desenvolvido por Waid e Ross pode ser enxergado através de duas óticas que podem render diferentes interpretações, ambas honestas. Uma delas é a de um leitor leigo, que o encara como uma grande história de super-heróis que levanta questões filosóficas, reimagina o universo DC de forma plausível dentro de seu próprio contexto e apresenta uma mensagem de otimismo e esperança para o futuro. A outra é a do leitor veterano, que consegue enxergar o mesmo que o colega recém-iniciado, mas também entende que Reino do Amanhã é uma espécie de manifesto contra o estado em que os gibis estadunidenses se encontravam na década de 1990 ao exercitar seus conhecimentos sobre o contexto da época e as principais editoras do mercado. Isso é algo dito e reiterado pelos próprios criadores, seja no tempo do lançamento ou nos anos que se seguiram, e que se torna explícito tanto pelo teor da obra, quanto pelo visual de muitos dos novos personagens, como é o caso de Magog, claramente inspirado em Cable, dos X-Men, ou do Americommando que, como dito pela dupla, é "o Capitão América se tivesse sido criado pelo Rob Liefield".

Uma nova era para os velhos heróis.

A arte de Alex Ross, vale ressaltar, caiu como uma luva para o teor da história. Seu estilo realista, aliado ao texto rico e valoroso de Mark Waid, consegue aliar o clássico ao moderno e dá ao quadrinho o tom imponente necessário para seu impacto e êxito, especialmente no que diz respeito aos super-heróis, que não poucas vezes são retratados como deuses ao melhor estilo greco-romano, elevando ainda mais a figura de tamanhos ícones da cultura pop mundial e alçando-os a um lugar em um panteão inalcançável. Mesmo as cenas de ação, que exigem maior sensação de fluidez e são alvo das principais críticas ao trabalho do artista, entregam a dinamicidade necessária e se saem bem no resultado final. É de se destacar, ainda, a composição das cenas e desenvolvimento dos visuais dos personagens, os quais ficaram todos a seu encargo, trazendo ideias interessantes para uniformes que certas vezes acabaram sendo incorporados ao universo regular, como é o caso do Robin Vermelho. E, como curiosidade, é justo informar que o visual do pastor Norman McCay é inspirado no pai de Ross, que serviu como modelo para seus desenhos.

Conforme dito anteriormente, a obra envolve basicamente todo o universo da DC, mas seu grande protagonista é o Superman. Tal destaque não é mero acaso, já que ele, na posição de primeiro super-herói já criado e, consequentemente, grande arquétipo do gênero, acaba por ser a incorporação antigos valores e tradições dos velhos gibis, algo que fica claro na história, especialmente em seu confronto com Magog, representante do que havia de novo. Ao mesmo tempo, é interessante ver durante o avançar da trama que, apesar de seu coração estar no lugar certo, sua cabeça não está e sua visão, tão presa ao modo que o mundo era outrora, acaba por levá-lo a tomar decisões equivocadas que levam a um resultado final irremediável. E é por isso que, ao final, ele cresce e muda sua postura de combativa para humanitária, o que é seguido pelos demais heróis, que passam a ajudar o mundo de outras formas. Esta visão acabou por definir o papel dos personagens na vida real dali em diante, com as boas histórias criadas desde então refletindo-a.

Reino do Amanhã foi lançada em diversos formatos ao redor do mundo. No Brasil, especificamente, saiu como minissérie em quatro edições separadas pela em 1997 e encadernado em 1998, ambos pela Editora Abril. A encadernação foi relançada em 2004 pela Panini que, a partir de 2013, passou a adotar o formato de luxo da publicação, o qual se encontra disponível em lojas e livrarias neste momento. Recheado de extras, conta com um enorme posfácio detalhando muitos dos aspectos do processo criativo, além de apresentar páginas extras que não constavam nas primeiras versões, como é o caso das cenas do Superman em Apokolips conversando com Orion e do epílogo no restaurante Planeta Krypton, que se encaixou perfeitamente com o resto da história e só intensificou sua mensagem.

O cenário dos quadrinho de super-herói estadunidense estavam salvos graças ao Superman e, principalmente, a Mark Waid e Alex Ross. Ou pelo menos até a chegada de uma nova "ameaça"... Mas isso é assunto para outra hora.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

"A carreira do Rush em 10 Álbuns: Por Geddy Lee" (traduzido do "Louder")


O Rush pode não existir mais, mas seu legado segue vivo. E não há ninguém mais orgulhoso do que eles deixaram para trás do que o vocalista e baixista Geddy Lee, cofundador da banda em Toronto no ano de 1968.

Lee se sentou com a revista Prog para relembrar 10 de seus melhores álbuns, desde a estreia autointitulada muito inspirada no Led Zeppelin até o canto do cisne em 2012, Clockwork Angels. Foi uma emocionante jornada, com altos e baixos, e ele respira fundo antes de começar...


Rush (1974)

O álbum de estreia, e o único do Rush com a formação Alex Lifeson (guitarra), Geddy Lee (baixo/vocal) e John Rutsey (bateria)

Geddy Lee: "Este disco foi a gente tentando encontrar uma sonoridade, achando que gostaríamos de ser uma banda de hard rock e emulando aquelas que achávamos legais. Consigo ouvir Led Zeppelin ali, e um pouco de Humble Pie. Gostaria de poder ouvir mais do que apenas essas duas referências, mas não consigo. John Rutsey era um baterista meio no estilo de Simon Kirke - só cuidar da batida e já podemos tocar. Então foi assim que as músicas foram compostas.

"Nós gravamos o álbum com um produtor chamado David Stock, mas o resultado sinal soou tão ruim que tivemos que refazê-lo com Terry Brown, que veio a se tornar nosso principal produtor. Adicionamos mais músicas nessa segunda versão, e uma delas era Finding My Way, que acabou se tornando uma das mais importantes faixas do álbum - verdadeiramente roqueira.

"E a música que realmente fez com que chamássemos a atenção foi Working Man. Ainda havia estações de rádio nos EUA sem uma programação estritamente controlada na época, e os DJs podiam apresentar faixas mais longas. Working Man tinha sete minutos de duração, e a quantidade de vezes que ela foi tocada acabou fazendo com que assinássemos um contrato com a Mercury Records. Foi uma canção com impacto incrível."


Fly By Night (1975)

No segundo álbum, Rutsey estava fora e Neil Peart estava dentro, como baterista e compositor. Também estava a bordo um estilo de rock mais progressivo.

Geddy Lee: "Nós tínhamos uma música escrita antes de Neil entrar - Anthem. Era algo mais arriscado do que qualquer coisa no primeiro álbum, tocada em um tempo de batida pouco comum. Foi o tipo de composição que convenceu John de que talvez isso não fosse para ele. Então, um ponto de virada para o grupo.

"Não era a ideia inicial de Neil escrever as letras. Eu e Alex sempre forçávamos ele a tentar porque não queríamos ter de cuidar disso. Mas acabou funcionando muito bem para nós.

"Beneath, Between & Behind foi um momento-chave em Fly By Night. Foi uma das primeiras letras que Neil compôs para a banda. Talvez tenha sido a primeira letra que ele escreveu na vida, ponto. Ela era bem prolixa, difícil de cantar, mas Alex e eu colocamos um instrumental fervoroso atrás dela e foi ótimo.

"By-Tor & The Snow Dog foi nossa primeira música épica. As pessoas odiaram o título: 'Ah meu Deus, que pretensioso!' Mas ela foi nomeada em homenagem aos dois cachorros do nosso empresário. Uma piada boba. E assim, de uma forma estranha, uma das principais canções do Rush começou como comédia."


2112 (1976)

A obra-prima que salvou a carreira do trio, definida por sua controversa faixa-título de 20 minutos com ares de ficção científica existencialista.

Geddy Lee: "Nosso terceiro álbum, Caress Of Steel (1975), não foi capaz de estabelecer uma conexão com o público. Ele era tão experimental, com nossa primeira tentativa de uma faixa-conceitual que ocupava um lado inteiro de um LP, The Fountain of Lamneth. Era tudo muito obscuro. Caress Of Steel não teve boa repercussão, e a gravadora não estava contente conosco. Então nós estávamos basicamente brincando com fogo naquele ponto.

"A última coisa que esperávamos era que 2112 fosse bem-recebido porque a faixa-título era outra que ocupava todo um lado do LP. Mas havia algo no som de 2112 que dava uma sensação muito mais definitiva e consolidada a ele.

"A história de 2112 era muito anti-autoritarismo. Era completamente sobre liberdade - individual e criativa -  e eu fiquei em choque quando a NME nos chamou de neofascistas. Isso é algo tão longe da realidade. É loucura.

"Mas no fim, o álbum realmente nos salvou. Trouxe muitos fãs novos. E o lado B realmente dá fechamento para o trabalho. A Passage To Bangkok, Something For Nothing, The Twilight Zone - são músicas de rock muito boas. E isso acabou se tornando um marco para nós, ter esse tipo de diversidade em todos os discos."


A Farewell To Kings (1977)

Indo totalmente contra a maré, este foi um colosso do rock progressivo criado no ano em que o punk estourou. Xanadu, Cygnus X-1, pássaros cantando: está tudo aqui.

Geddy Lee: "Era um sonho para nós gravar um álbum na Grã-Bretanha. Muito da música que nos influenciou enquanto crescíamos era blues rock britânico e rock progressivo britânico. Nós havíamos feito nossa primeira turnê no Reino Unido em 1977, e com Terry Brown sendo um britânico vivendo em Toronto, eu perguntei, 'Por que nós não gravamos por lá?' E foi assim que fomos parar nos Estúdios Rockfield em Gales.

"Nós ficamos muito embasbacados, então foi uma grande aventura gravar no interior galês. Tudo parecia muito rústico, especialmente durante as primeiras semanas, com o som de ovelhas balindo em sua janela ao amanhecer. Mas amamos trabalhar por lá, ir aos campos para capturar os sons ambientes que vocês ouvem em Xanadu e A Farewll To Kings - o eco natural das paredes de pedra, e os pássaros cantando ao nascer do sol.

"Xanadu foi gravada toda de uma vez só - 11 minutos, direto. Desde que nos preparássemos, podíamos fazer esse tipo de coisa. E Cygnus X-1 foi um mergulho de cabeça no espaço sideral - um tipo totalmente diferente de viagem."


Permanent Waves (1980)

Depois do longo e complexo Hemispheres de 1978, Rush entrou na nova década com um novo som, completo com o hit The Spirit Of Radio.

Geddy Lee: "Nós sentimos que realmente estávamos começando a parecer formulaicos com Hemispheres, e isso era assustador. A faixa que abria o álbum (Cygnus X-1 Book II: Hemispheres) era como 2112, com quase 20 minutos de duração, e não queríamos ficar nos repetindo.

"Com Permanent Waves, queríamos mais urgência em nosso som, no que diz respeito à empolgação - um tipo diferente de energia. Ainda tínhamos músicas como Natural Science, que é uma das minhas faixas favoritas em toda nossa história. Mas nossa intenção com o disco era realmente condensar nossa sonoridade e tentar ser compositores melhores.

"The Spirit Of Radio deu o tom a todo o registro. Ela era tão pra cima e tão contemporânea. A música é sobre a comercialização da música e como o rádio estava mudando. O riff de Alex representava o movimento das ondas de rádio. E a forma como a canção vai se modificando, entre diferentes estilos e tempos, foi feito para soar como se você estivesse mudando as estações.

"O álbum nos levou a um novo período, e tudo pareceu muito natural."


Moving Pictures (1981)

O maior e melhor álbum do Rush, contendo as clássicas Tom Sawyer, Limelight, Red Barchetta e YYZ. Mas foi difícil acertá-lo...

Geddy Lee: "Moving Pictures foi um disco enorme para nós. Aquele nível de sucesso era muito acima de qualquer coisa que havíamos vivido antes. Mas tivemos muitos 'momentos' com esse trabalho - foi bem difícil de finalizá-lo.

"Duas músicas foram tranquilas de serem compostas: Limelight e Red Barchetta, que era tão boa de se tocar ao vivo. Tom Sawyer foi o contrário, ganhando vida tardiamente. Tivemos tanto trabalho em ajustar os solos de guitarra e balancear o final. Mas depois de tanto sofrimento, acertamos em cheio e se tornou algo muito poderoso. Nos ficamos meio que, 'Cacete, de onde veio isso?'

"Nós nos divertimos muito com Witch Hunt [parte três de 'Fear']. Embora seja uma música sombria, ela envolveu tanta besteira. Para gravar os sons das multidões, nós três saímos para o estacionamento do estúdio no frio congelante do inverto. Mas na noite em que mixamos a música, soubemos da notícia de que John Lennon havia sido baleado. Ficamos todos em choque, muito chateados. É algo que jamais esquecerei."


Power Windows (1985)

Em um álbum brilhante, dominado por teclados, um guitarrista insatisfeito levou uma pelo time.

Geddy Lee: "Tivemos esse período nos anos 80 - a era dos teclados. Começou com Signals (1982), e foi até Hold Your Fire (1987). Acho que Power Windows é o melhor desse período. Eu amo a qualidade do som. Mas para Alex foi um disco frustrante de se fazer. E eu não tinha ideia do quão sofrido foi para ele até depois de encerrar as gravações.

"Eu estava tocando teclado, e também trouxemos Andy Richards, um especialista em sintetizadores bem respeitado. Então estávamos cobrindo as faixas com som, e Alex teve que lutar por seu espaço ali. Ele não surtou - não é de seu feitio. Ele joga pelo time, então seguiu com a corrente. Foi apenas depois de terminarmos que ele expressou suas frustrações.

"Claro que, olhando para trás, eu posso entender completamente. Mas no geral, há um bom equilíbrio entre músicas de destaque para guitarra como The Big Money e de predomínio de teclados como Middletown Dreams, uma bela canção. E em Mystic Rhythms, tudo gira em torno do riff de guitarra. Sério, Alex tocou de forma incrível em Power Windows. É algo evidente no decorrer do disco."


Roll The Bones (1991)

Mais guitarras, e ótimas músicas: os fatores-chave no melhor álbum da banda no início dos anos 90.

Geddy Lee: "Havia algumas boas músicas em Presto (1989). The Pass é de longe uma das melhores coisas que já escrevemos. Mas as composições foram tão mais fortes em Roll The Bones.

"Era definitivamente um álbum com mais foco na guitarra. Nós pisamos um pouco no freio com os teclados. Eles ainda estavam ali, mas não com tanta evidência quando em Presto e nos trabalhos anteriores, Power Windows e Hold Your Fire.

"Para mim, em retrospecto, a produção de Roll The Bones deixou um pouco a desejar. Ele poderia ter soado maior e mais consistente. Mas acho que o que garantiu o êxito do trabalho é a qualidade das músicas. Bravado é uma faixa tão bem escrita. O mesmo vale para Dreamline, e Ghost Of A Chance - que eu amo.

"O álbum como um todo representa um verdadeiro amadurecimento para nós como compositores. E a faixa-título cresceu muito com o tempo. Tocamos ela na nossa última turnê, em 2015, e foi uma sensação diferente, mais profunda. Ela soa mais forte atualmente, e eu pude sentir isso na forma que o público reagiu."


Vapor Trails (2002)

O álbum de retorno. Em 1998, após a morte de sua esposa e filha, Neil Peart disse a Lee e Lifeson para considerá-lo aposentado. Cinco anos depois, ele e o Rush voltaram à ativa.

Geddy Lee: "Sem dúvidas, Vapor Trails foi o disco mais difícil que fizemos. Eu não achava que voltaríamos e gravaríamos outro álbum. E foi muito difícil - uma época de muita emoção.

"Tivemos que redescobrir como trabalhar juntos, e sempre sendo razoáveis com a situação de Neil. Sua confiança teve que voltar lentamente. Tínhamos que dar espaço a ele e, ao mesmo tempo, encorajá-lo.

"O processo de composição foi bem inseguro, eu diria. E no que diz respeito às letras de Neil, era uma questão sensível. Ghost Rider e a faixa-título, ambas foram bem pessoais para Neil. Estávamos tentando achar a balança entre deixar Neil expressar o que passou e forçar as letras a um nível mais universal, de modo que se tornasse uma declaração válida sobre a vida, ao invés de apenas sobre uma pessoa.

"Tanta emoção crua acabou indo para Vapor Trails, e ele foi um disco que soou cru. Mas conseguimos superar isso. E era tudo o que importava."


Clockwork Angels (2012)

O clássico do final da carreira. O 19º trabalho de estúdio da banda foi de fato o que todo fã do Rush sonhou por muito tempo - um álbum conceitual do início ao fim.

Geedy Lee: "Nunca entrou em nossas mentes que este talvez fosse nosso último álbum - estávamos tão empolgados em fazer algo conceitual novamente. Mas tomamos cuidados para que ele não soasse tão progressivo. Nós quisemos mantê-lo moderno: bem diverso, cheio de música e melodias fortes, mas que ainda abalasse estruturas.

"A história que Neil criou para Clockwork Angels é fantástica. Essencialmente, é sobre inocência - um jovem que vai para o mundo, como todos fazemos. Ele é enganado e trapaceado, mas no fim chega a conclusão de que, independente das coisas tolas que fez durante a vida, ele faria tudo novamente, e que valeu a pena.

"Nós não queríamos que o som fosse escravo do enredo. Queríamos que as músicas parecessem levemente conectadas umas às outras, mas que também tivessem vida própria fora do conceito. Essa foi a parte mais difícil. Mas no fim conseguimos. É um dos melhores registros musicais que já criamos."

-

Este texto é uma tradução integral do original em inglês, escrito por Paul Elliot e publicado no Louder. Você pode conferi-lo aqui: https://www.loudersound.com/features/rush-s-career-in-10-albums-by-geddy-lee