segunda-feira, 22 de outubro de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #3: "Superman - Entre a Foice e o Martelo"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, Verdade, Justiça e o Modo de Vida Soviético em um dos mais marcantes contos do personagem na Era Moderna.

E se a nave do Superman chegasse à Terra com 12 horas de diferença, não caindo em uma área rural do Kansas, mas sim em uma fazenda na União Soviética?

Esta provavelmente é uma pergunta que ninguém havia feito antes. Exceto o escritor Mark Millar, que se questionou sobre isso após ler, ainda criança, uma história publicada em Superman #300, em que a nave de Kal-El caía em território neutro entre os EUA e a URSS, com ambos os lados disputando a custódia do visitante de outro planeta. O impacto da ideia em sua mente foi tão grande que ele fez questão de guardá-la pelo tempo que fosse necessário até que pudesse trabalhar com ela de forma adequada. E demorou, mas ela finalmente pode ver a luz do dia, mais de 20 anos depois de a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixar de ser uma ameaça e sequer existir.

Superman - Entre a Foice e o Martelo foi publicada em 3 partes no ano de 2003, durante uma época em que não era incomum ver versões alternativas de heróis da DC dando as caras através do selo Túnel do Tempo (Elsewords, no original), o que chegou a render curiosidades como Superman: Morcego de Aço ou Batman: In Darkest Knight (que, pasmem, segue inédito no Brasil), além de clássicos absolutos como JSA: A Era de Ouro e Reino do Amanhã. Desde então, se tornou uma das mais celebradas e queridas interpretações do personagem, seja por sua história, a forma que realizou sua releitura ou os dilemas e questionamentos que traz dentro de seu roteiro.

Não importa a orientação política: o Superman sempre será o Superman.

A trama engloba um período compreendido entre 1953 e 2001, e se desenvolve a partir da questão levantada ao início do texto: a nave de Kal-El cai em uma fazenda coletiva na Ucrânia, território pertencente aos soviéticos, e ele ali cresce até decidir revelar sua existência em público, realizando seus primeiros atos heroicos em Moscou e rapidamente sendo adotado pelo povo e, principalmente, pelas lideranças do Partido Comunista e do governo, ainda encabeçadas por Josef Stalin. Sua aparição não passa despercebida do outro lado do mundo, porém, e o governo dos Estados Unidos logo alerta sua população sobre a existência do "campeão do trabalhador comum que luta uma batalha sem fim por Stalin, socialismo e a expansão internacional do Pacto de Varsóvia", acionando na sequência seu mais brilhante cidadão, Lex Luthor, casado com a intrépida jornalista do Planeta Diário que fez sua carreira como Lois Lane.

Este tipo de brincadeira com o que é conhecido sobre o Superman do universo principal da DC vem a ser um dos principais atrativos do quadrinho. Ver o Homem de Aço pautar seus ideais conforme aquilo que acredita ser certo dentro do regime ditatorial socialista acaba por dar uma nova dinâmica ao personagem, ainda que seu conceito principal permaneça inalterado (dentro de uma lógica distorcida, é claro). Luthor, por sua vez, acaba sendo a grande estrela em seu país ao não ser ofuscado pelo herói, até conquistando aquela que normalmente seria sua esposa, mas sua obsessão pelo alienígena soviete e suas tentativas de derrotá-lo acabam por manter o gênio na posição de antagonista, seja em sua versão cientista louco, magnata dos negócios ou presidente, em alusão às várias fases vivenciadas pelo vilão. Estas reimaginações não se limitam aos protagonistas, no entanto, e acabam abraçando muitos outros elementos conhecidos da editora, rendendo até uma versão socialista da Mulher-Maravilha, um Batman em total oposição ao sistema, um Jimmy Olsen agente da CIA e por aí vai. 

A grande força de Entre a Foice e o Martelo está, porém, na forma com que Millar conduz o quadrinho. Em meio a um enredo repleto de elementos tipicamente super-heroicos e de ficção científica, está um forte comentário político, como é de se imaginar. E o escritor triunfa justamente ao fugir do senso comum, não se deixando levar por uma visão maniqueísta de "capitalismo bom, socialismo ruim" ou vice-versa, focando-se em retratar os pontos fortes e fracos de ambos os sistemas. Quando trata do regime mantido pelos soviéticos, por exemplo, em meio a distribuição de renda, lobotomias, pleno acesso e funcionamento de serviços públicos e eliminação de opositores a sangue frio, fica clara a mensagem: apenas um verdadeiro super-homem poderia fazer aquele sistema funcionar, e não a toa ele fracassou. E do lado estadunidense, a liberdade e a democracia vêm acompanhadas da demonização de seus adversários, do apoio a homens insanos como último recurso, da quebra do sistema capitalista em face de um duro bloqueio econômico e seu retorno à prosperidade apenas através de uma rígida interferência estatal em diversos setores da sociedade. Estes são apenas alguns exemplos dentre vários outros que traduzem o pensamento do autor quanto ao fato de não haver preto no branco quando o assunto é política, apenas áreas densamente cinzas que se refletem tanto no Superman quanto em Lex Luthor, ambos frutos dos sistemas em que foram criados.

Tal clima político seria bem menos impactante se não fosse o trabalho de arte desenvolvido nas três edições da HQ. Embora haja uma clara diferença entre os estilos de Dave Johnson e Kilian Plunkett, ambos tem êxito na execução da proposta de misturar propaganda e símbolos socialistas a um traço muito semelhante ao visto no desenho animado do Superman da década de 1940, produzido pelos irmãos Fleischer. É estranho ver uma mudança entre artistas no meio da minissérie, mas ela faz sentido se pensada como uma forma de representar a mudança de época em forma de um comentário metalinguístico, referenciando-se às eras dos quadrinhos de super-herói, algo que acontece no roteiro através de uma mudança na tonalidade da trama e no comportamento dos personagens. Ou simplesmente pode ter sido algo necessário para cumprir os prazos para entrega das revistas. Seja como for, os dois cumprem o papel que lhes é incumbido, com quadros detalhados e figuras dinâmicas. E, como curiosidade, é justo ressaltar que Alex Ross participou dos estágios iniciais da concepção visual, trabalhando a aparência e uniforme do protagonista nesta reinterpretação.

A Era de Prata dos quadrinhos de super-herói, vista sob a ótica soviética.

Para uma história tão ambiciosa, apenas um final a altura seria aceitável. E o que foi entregue não decepcionou, pelo contrário: o inteligente desfecho para o conflito, seguido de uma gritante reviravolta nas páginas derradeiras, são marcantes o suficiente para fazer com que qualquer fã coloque a obra entre suas favoritas, tanto do herói quanto do meio. É curioso pensar que a conclusão da briga entre Estados Unidos e União Soviética, embora seja precedida por um confronto com todos os elementos clássicos de um gibi super-heroico, se dá através de uma solução psicológica, assim como foi boa parte do enfrentamento da Guerra Fria. E quanto a inesperada virada vista ao fim, sua existência é devida a ninguém menos que Grant Morrison, que aconselhou o então amigo Mark Millar a encerrar a trama de tal forma. Pode parecer uma simples contribuição, mas é difícil imaginar o quadrinho recebendo tamanha aclamação sem este "pequeno" detalhe, que o faz beirar o impecável de cabo a rabo.

Superman: Entre a Foice e o Martelo teve grande repercussão e publicações em todo o mundo. No Brasil, saiu pela primeira vez em 2004, respeitando o formato de minissérie em três edições individuais, que foram encadernadas e trouxeram a história de volta ao mercado em 2006, em uma edição de capa cartonada. Depois disso, apenas em 2017 o publico pode ter novamente acesso a uma versão localizada do quadrinho, com o lançamento de um encadernado em capa dura e preço acessível. Todas elas ficaram por encargo da Panini que, infelizmente, cometeu alguns deslizes em seu mais recente formato e deixou passar alguns erros grotescos de tradução, ortografia e revisão, sendo o mais simbólico deles o "capas" no lugar de "capaz" logo nas primeiras páginas, o que espera-se que tenha sido corrigido em reimpressões posteriores.

Talvez ninguém tenha se perguntado antes o que teria acontecido se a nave do Superman tivesse caído na URSS ao invés dos EUA, com exceção de Mark Millar. Mas a resposta para esta questão acabou por tomar o mundo de assalto e marcar a já extensa história do super-herói mais antigo existente em uma de suas mais criativas reinterpretações. Mais do que isso, serviu para desmistificar imagens criadas durante a Guerra Fria e mostrar que não existem questões fáceis quando se trata de política, um campo que, definitivamente, não permite distinções brandas entre heróis e vilões na disputa por hegemonia e poder.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Triste com o filme do Venom? Pelo menos a atual HQ dele é muito boa!


Queira ou não, goste ou não, o Venom é um dos personagens mais populares que saiu das páginas dos quadrinhos do Homem-Aranha. Surgido como vilão no final dos anos 1980 e transformado em anti-herói graças a seu crescente apelo nas histórias do aracnídeo, a criação de Todd McFarlane e David Michelinie já passou por diversas fases (chegando até a integrar os Guardiões da Galáxia) e seu simbionte já fez par com diversos hospedeiros, mas sempre é lembrado pelo original, Eddie Brock, e o clima de terror e violência que marcaram sua primeira aparição. O impacto de seu surgimento foi grande o suficiente para angariar fãs e levá-lo até as telas do cinema pela primeira vez como um dos antagonistas de Homem-Aranha 3, em 2007, e retornar neste como protagonista de Venom, sua primeira empreitada solo que, por escolha dos produtores, mostra-se isolado do universo do herói que o colocou nos holofotes.

Infelizmente, apesar de estar indo bem nas bilheterias, seu filme autointitulado acabou não vivendo às expectativas, decepcionando tanto crítica quanto público, que se depararam com uma história desorganizada que não foge do básico, momentos bizarros e efeitos especiais pouco convincentes, de modo que nem mesmo as boas atuações do competente elenco conseguem se sobressair às inúmeras falhas. É uma pena e um desperdício, de fato. No entanto, nem tudo são más notícias quando se trata do personagem: Venom vive uma de suas melhores fases nas páginas das revistas em quadrinhos, com roteiros de Donny Cates e desenhos de Ryan Stegman, dois talentos em ascensão que vêm ganhando cada vez mais espaço na Marvel.

Logo na primeira edição da HQ já é possível perceber o quão diferenciada ela é: tudo se inicia com Brock tendo sonhos estranhos situados na Idade Média, em que ouve um idioma que não consegue identificar. Ao acordar, encontra o simbionte acuado, sem entender o que está acontecendo ao certo. Ainda assim, resolvem sair para patrulhar e tentar salvar algumas vidas. É a partir daí que as coisas ficam ainda mais interessantes: o parasita alienígena foge do controle em um confronto, Eddie descobre que o "seu outro" (como ele carinhosamente chama o organismo extraterrestre com quem divide o corpo) não foi o primeiro a aparecer na Terra e parte em busca dos velhos companheiros de equipe de um ex-agente da SHIELD que conhece entre estes acontecimentos.

Parece loucura, não? Pois essa pegada se mantém nos números seguintes, adicionando cada vez mais elementos absurdos. Mentes conectadas, dragões intergaláticos, deuses do abismo, ligações com a origem do universo e os Celestiais, a guerra do Vietnã... É possível encontrar tudo isto e mais um pouco em Venom. E o mais impressionante é que FAZ TOTAL SENTIDO. O trabalho de Cates na criação e desenvolvimento da trama consegue encaixar os mais variados elementos das principais fases do personagem (e até de outros, como é o caso do Thor) e combiná-los com criações próprias para trazer a tona uma mitologia rica e que faz jus às raízes do antigo vilão do Homem-Aranha. Ao mesmo tempo, não se esquece de entreter o leitor e equilibra o desenrolar da história com cenas de ação frenéticas ao lado de Stegman que, apesar de apresentar uma arte ligeiramente confusa em alguns momentos, entrega grandiosidade e exagero sempre exigido dele.

O gibi vem se destacando nos Estados Unidos, com inúmeros elogios dos veículos especializados edição após edição, além de ter conquistado uma boa base de fãs, que provavelmente foi formada pelos incansáveis fanáticos pelo anti-herói, apreciadores de uma boa leitura e quem entrou no hype do filme e acabou se deparando com uma ótima publicação. Curiosamente ou não, a revista triunfa exatamente nos aspectos que o recente longa falhou, apresentando uma trama coerente e que foge (muito) do lugar comum, momentos que surpreendem e um bom trabalho artístico. Ryan Stegman declarou uma vez que "Venom era melhor que Watchmen", algo que rapidamente foi abraçado pelos leitores. Uma brincadeira, claro, mas seu trabalho ao lado de Donny Cates vem se mostrando de altíssimo nível e não é exagero dizer que a dupla está fazendo uma das melhores HQs atualmente disponíveis no mercado, a qual certamente já marcou a história do personagem.

Acredite: este é só o início das pirações que acontecem em "Venom". Ficou curioso? Vá ler a HQ!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

BALANÇO MUSICAL - Setembro de 2018


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Setembro foi... estranho. Não que tenha sido ruim, mas também não foi exatamente bom. Um pouco de diversão, alguns reencontros e desencontros, uma ou outra surpresa e três péssimos dias ao final do mês, somados à velocidade com que tudo se passou, fizeram dele um período esquecível, quiçá insosso e deixou a sensação de tempo perdido. Não que eu estivesse esperando que qualquer coisa fosse acontecer, pelo contrário, mas é estranho que tenha sido tão vazio depois de épocas recentes bem mais agitadas e/ou atarefadas. Espero não ter que me acostumar com essa nova realidade, mas infelizmente não é algo que descarto, ao menos para o futuro próximo.

Tratando-se de música, no entanto, o papo é outro. Sei que já está ficando chato vir aqui e dizer isso em praticamente toda postagem desde abril deste ano (a exceção sendo junho), mas setembro foi mais um mês em que bati meu recorde de músicas ouvidas e todo o resto. Apenas um foi mantido: o de maior número de reproduções em um único dia (132), que consegui em agosto; por outro lado, o segundo lugar acabou sendo renovado três vezes, com 109, 110 e 112 composições escutadas. De resto, foram 2.462 scrobbles realizados em meu last.fm (uma média diária de 82), contando com 596 artistas, 961 álbuns e 1.986 faixas diferentes. Um ritmo muito elevado, talvez quase doentio, de consumo musical, que tem me feito pensar muito em sua qualidade e aproveitamento em relação a tamanha quantidade. Provável que eu dê uma pisada no freio nos próximos meses.

De qualquer forma, sempre há o que consiga se distinguir no meio de tamanhos números, e é valido comentar sobre eles em meus DESTAQUES DO MÊS, que podem ser vistos logo a seguir.

ARTISTAS DO MÊS:

- Paul McCartney: o maior músico vivo lançou um novo trabalho neste mês e, além de conferi-lo repetidas vezes, acabei me aventurando mais uma vez em alguns dos feitos mais antigos de sua prolífica e rica carreira solo. E é como digo: Sir Paul nunca é demais.

- Eric Clapton: "Clapton is God", eles dizem. E não estão errados. Pelo terceiro mês seguido, o bluesman marca presença aqui no Balanço Musical, desta vez representado por Run So Far, que conta com a participação do beatle George Harrison, que foi um de seus melhores amigos.

- Adrian Smith and Project: o ASAP, abreviação do nome do grupo (que só coloquei de forma completa por ser assim que se encontra no Spotify), é uma das bandas que carrego no coração. O projeto do guitarrista Adrian Smith, conhecido por seu trabalho no Iron Maiden, é pouco conhecido, mas repleto de qualidade. De curta duração, rendeu apenas um álbum e dois singles, os quais estão todos disponíveis no serviço de streaming (e espero que nos concorrentes também), algo que encheu meu coração de felicidade com a descoberta. Vão conferir!

ÁLBUNS DO MÊS:

- Beth Hart & Joe Bonamassa - Black Coffee (2018): o terceiro trabalho da talentosa dupla é, novamente, um compilado de reinterpretações de algumas de suas principais influências, focadas especialmente no Rhythm & Blues, Jazz e Blues Rock. E isso não faz dele ruim, pelo contrário. O poder da voz de Hart e a habilidade mais que conhecida de Bonamassa faz do registro um deleite para os ouvidos.

- Paul McCartney - Egypt Station (2018): o mais novo disco solo do beatle vem recheado de experimentações e sonoridades com ares modernos, mas que consegue soar clássico ao mesmo tempo, com diversos acenos aos sons praticados pelos Beatles ou Wings. É mais um atestado da genialidade incomparável de McCartney, que novamente se prova relevante e mostra que ainda tem muita lenha para queimar. Um músico sem igual, seja ontem ou hoje.

- Slash feat. Myles Kennedy And The Conspirators - Living The Dream (2018): apesar de ter dividido a crítica, o mais novo trabalho do eterno guitarrista do Guns N' Roses me convenceu (bem mais que seu cansativo antecessor, World On Fire). A impressão que ficou foi a de um disco conciso, com boa variação entre faixas agressivas com outras mais melódicas, além do entrosamento já esperado do grupo. Talvez precise escutar mais vezes mas, pelo menos por ora, digo que gostei.

- Elise LeGrow - Playing Chess (2018): tomei contato com o álbum de estreia da vocalista recentemente, através de uma playlist, e fiquei surpreso com o resultado. O belo registro tem a força de LeGrow à frente de uma competente banda que pratica uma poderosa mistura de Jazz, Blues e pitadas de Pop, cativando o ouvinte com sua qualidade e talento.

- The Vintage Caravan - Gateways (2018): um interessante trabalho do grupo islandês, com uma pegada que varia entre o psicodélico, o progressivo e o clássico, mas sem cair nas armadilhas de apenas emular o que já foi feito e que oferece algo de fato bom e atual pra a cena atual. Há algumas grandes músicas neste CD.

- Clutch - Book of Bad Decisions (2018): conheci o disco graças a uma recomendação em um grupo de Facebook que participo, e fico feliz que ela tenha me apresentado a este colosso. O Clutch é uma banda quase desconhecida no Brasil, mas que definitivamente merece mais atenção. Um Rock impactante e de muita qualidade técnica faz deste mais um dos candidatos à lista de melhores do ano.

- Sepultura - Chaos A.D. (1993): este clássico do Metal brasileiro e mundial completou 25 anos no último dia 2 de setembro, e nada mais justo do que dar a ele espaço tanto na playlist quanto aqui. E nem preciso falar nada sobre a qualidade, certo? Se você ainda não conhece, corra e ouça!

- Ringo Starr - Ringo (1973): e quem diria que o beatle mais esquecido pelo público ganharia espaço por aqui? O fato é que ele merece este reconhecimento. Ringo, seu terceiro trabalho solo, é um discaço ao nível do que foi feito por seus ex-companheiros de banda após a separação, e vale dizer que todos eles participam de ao menos uma de suas faixas. Com um pouco de imaginação, dá para dizer que este é um álbum dos Beatles gravado durante a década de 1970.

- UFO - Phenomenon (1973): acredite ou não, mas eu nunca tinha ouvido este clássico. E como eu me arrependo de não ter conhecido-o antes. Um disco atemporal, sonoridade riquíssima e elementos que notavelmente influenciaram grupos como Judas Priest e Iron Maiden. Não faça como eu e vá conferi-lo o mais rápido possível.

MÚSICAS DO MÊS:

- Puffy AmyYumi - Teen Titans Theme: o tema de abertura do antológico desenho dos Jovens Titãs é algo que ficou para a história das animações de super-heróis, e não a toa uma versão remixada de um trecho seu também é introdução de Os Jovens Titãs em Ação!, a versão mais voltada à comédia dos personagens. Na playlist, pontua o dia em que fui assistir Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas e, embora pudesse ter usado uma das faixas da divertidíssima trilha do longa, achei que esta seria mais emblemática.

- Queen - Who Wants To Live Forever: minha singela homenagem à Freddie Mercury, que teria completado 72 anos em 6 de setembro se ainda estivesse vivo. Sua presença física pode não estar mais entre nós, mas sua persona e voz são imortais.

- Roger Waters - Home: outra homenagem, desta vez ao vocalista e baixista que integrou o Pink Floyd até 1983 e que segue uma ótima carreira solo desde então.

- Adrian Belew feat. David Bowie - Pretty Pink Rose: essa é uma música que eu já havia escutado algumas vezes em minhas Descobertas da Semana do Spotify e que felizmente consegui encaixar aqui, já que é divertida e repleta de qualidade.

- Joan Jett & The Blackhearts - You Don't Own Me: uma forma de celebrar a entrada da discografia completa da lendária Joan Jett no catálogo do Spotify, além de ser a música que encerrou a primeira temporada de The Handmaid's Tale e, curiosamente, eu a escutei no mesmo dia das passeatas das Mulheres contra Bolsonaro. #EleNão

- Rollin' (Air Raid Vehicle), Blue Sky Mine, Magic, Mr. Roboto: todas músicas que eu estava segurando há tempos para, um dia, incluir em uma de minhas listas, e felizmente consegui encaixar todas elas desta vez.

Confira a playlist feita durante setembro de 2018:

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Capitã Marvel vem aí para chutar nossas bundas (ao som de Pearl Jam após alugar uma fita VHS)


Sorriam, fãs da Marvel ao redor do mundo! Após anos clamando por um filme solo de alguma de suas principais heroínas (algo que já deveria ter acontecido há tempos com, no mínimo, a Viúva Negra), está chegando o dia de o estúdio finalmente entregar uma de suas mais aguardadas adaptações desde seu anúncio no fim de 2014: Capitã Marvel. O longa, que já deveria ter sido lançado em julho deste ano de acordo com o planejamento inicial, finalmente chegará aos cinemas brasileiros em 7 de março de 2019, com estreia estrategicamente marcada nos EUA e demais mercados no dia subsequente, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Após a divulgação das primeiras imagens e detalhes através da Entertainment Weekly, hoje foi a vez de mostrar o primeiro pôster e trailer, revelados durante a participação da atriz Brie Larson, que dá vida à protagonista, no programa estadunidense Good Morning America. Simples e pouco reveladores, porém poderosos, os materiais promocionais deixam uma mensagem bem clara: a Marvel Studios não está para brincadeiras, seja no que diz respeito à introdução daquela que promete ser a principal super-heroína de seu universo cinematográfico, seja para enfrentar a competição e possíveis comparações da DC que, além de Shazam! (o Capitão Marvel original), também tem marcada a estreia de Mulher-Maravilha 1984 para o próximo ano.

A prévia dá pistas do que esperar do filme, porém. Amnésia, passado como piloto de caças militares, natureza alienígena dos poderes, fica claro que, como era de se esperar, a origem de Carol Danvers será diferente da vista nos quadrinhos, deixando de lado a identidade super-heroica de Ms. Marvel (o que deixa aberta a possibilidade da introdução de Kamala Khan em um futuro próximo) e já indo direto aos finalmentes, com a presença da Carol Corps., capacete com moicano e as habilidades cósmicas de quando foi conhecida por Binária. Ao mesmo tempo, muita ação aliada ao clima típico dos anos 1990, época em que o longa se situa (com direito até à presença de uma loja da rede de videolocadoras BlockBuster), acabam por remeter à clássicos como Exterminador do Futuro 2 e Duro de Matar 2 e 3. E vale ainda o destaque para o jovem Nick Fury, a participação de Jude Law (que suspeito que será a versão cinematográfica de Mar-Vell) e, como não poderia deixar de ser, a cena em que a personagem-título dá um soco em uma velhinha, provavelmente um Skrull disfarçado, como já apontado por vários sites.

Confira abaixo o primeiro trailer de Capitã Marvel:


De quebra, fique também com o belo primeiro pôster do filme:

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

SUPERMAN - 80 anos, 8 histórias #2: "Reino do Amanhã"


Bem-vindos ao meu especial sobre o Superman, no qual falarei sobre 8 diferentes histórias do personagem como forma de celebrar seus 80 anos. Essas histórias podem variar entre arcos, edições únicas ou fases completas. Mais do que recomendar quadrinhos, espero que possa transmitir o que cada uma das escolhas significa para mim. Hoje, uma HQ em que os heróis de outrora tiveram que crescer.

A década de 1990 foi um período conturbado para a indústria de HQs estadunidense. Enquanto a parte mercadológica sofreu com a "Bolha dos Quadrinhos", a falência da Marvel e a perda de uma grande parcela do público, o campo criativo também passava por maus bocados: obras seminais como Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas ainda influenciavam novas revistas de super-herói, mas não da forma almejada por seus criadores. Apenas a estética e temas superficiais como a violência e a sensualidade foram absorvidos pelos roteiristas e desenhistas em destaque à época, que passaram a apresentar, em regra, tramas fracas, tentando se passar por adultas ao mostrar armas, tiroteios e conspirações aliados a assuntos polêmicos como violência sexual ou suicídio, mas sem nunca se aprofundar em nenhum deles; enquanto as artes eram de cair o queixo, embora sempre sexualizadas. Tudo isso envolto em uma atmosfera de cinismo e trevas, afastando-se do que os gibis foram um dia.

Havia exceções, como sempre há. Esta também foi época do surgimento da linha Vertigo, apresentando títulos subversivos e de temática adulta como Sandman, Preacher e Hellblazer, que fizeram história por sua inventividade, inovação e críticas sociais sempre inerentes. No âmbito superheroico, a Marvel chafurdava em um mar de histórias ruins, salvando-se apenas as sagas cósmicas escritas por Jim Starling, uma ou outra revista dos X-Men e a minissérie Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross. A situação na DC não era muito diferente já que, enquanto o Universo da Milestone Media ia passando quase despercebido pelo público, a linha principal apresentava em especial o Flash de Mark Waid e o recém-iniciado Starman de James Robinson como os principais frescores quando se tratava do revigoramento dos conceitos clássicos de heroísmo para tempos mais modernos.

Alguns dos nomes citados foram essenciais para o que gosto de chamar de "O Retorno dos Clássicos". Um jovem Alex Ross, por exemplo, após o sucesso de Marvels, restabeleceu a parceria com Kurt Busiek para, junto ao desenhista Brent Anderson, criar a longeva Astro City, com todo seu teor de homenagem aos super-heróis, na Image Comics. Ross também tinha uma ideia semelhante a da minissérie publicada pela Casa das Ideias para a DC, resgatando alguns conceitos de Crepúsculo dos Super-Heróis (o trabalho perdido de Alan Moore), e resolveu apresentá-las para James Robinson que, além de Starman, havia tido bastante sucesso com A Era de Ouro, uma história que apresentava os personagens da Sociedade da Justiça em um contexto mais adulto e desconstrucionista durante o pós-Guerra. Robinson gostou da ideia e aconselhou Ross a procurar por seu amigo Mark Waid, um exímio conhecedor da cronologia da Editora das Lendas e, tal qual o artista, um grande entusiasta da Era de Prata dos quadrinhos.

Foi neste contexto e através desta quase mística união de esforços que nasceu Reino do Amanhã, a mais importante obra da DC durante a década de 1990 e uma das leituras essenciais do período. Lançada originalmente em 1996 através do selo Elseworlds (conhecido aqui no Brasil como Túnel do Tempo) em quatro edições, a história se passa no futuro de uma realidade alternativa ao universo regular das revistas de linha, apresentando versões mais velhas de seus principais personagens, quando não os filhos ou herdeiros de seus mantos, em uma representação do conceito de legado, um dos grandes diferenciais da editora, extrapolado ao seu máximo. E embora a minissérie englobe uma larga variedade de heróis conhecidos do público, em especial os bastiões formadores da Liga da Justiça, seu foco, como não poderia deixar de ser, é voltado ao primeiro de todos, o Superman.

O retorno triunfal.

Na trama, situada em um mundo em que os velhos super-heróis saíram de cena ou passaram a atuar nas sombras após um terrível incidente, tendo sido substituídos por uma nova onda de personagens cuja moral trilha um perigoso caminho em que justiça e violência desmedida se confundem, acompanhamos o pastor Norman McCay e Espectro, o Espírito de Vingança, em uma jornada para testemunhar uma enorme catástrofe de proporções apocalípticas, com a qual McCay já vinha tendo visões, sem entender muito bem do que se tratava. Enquanto isso, o Superman, após uma visita instigante da Mulher-Maravilha, enxerga o caos em que a sociedade se encontrava mergulhada e resolve sair da aposentadoria para trazer a justiça e a ordem novamente ao planeta, independente do custo, convocando assim alguns de seus velhos aliados junto a representantes da nova geração que estivessem dispostos a seguir sua visão e orientação.

Em meio a intrigas, reviravoltas e paralelos com citações bíblicas do livro do Apocalipse, o enredo se desenvolve ao mostrar a equipe liderada pelo Homem de Aço tomando decisões cada vez mais autocráticas como forma de assegurar a paz e os velhos costumes através do fim forçado da criminalidade, sempre com a orientação de uma Mulher-Maravilha menos diplomática e mais agressiva do que antes, observada por um Superman que, embora execute as ideias dadas pela Amazona, não se sente 100% seguro quanto ao benefício delas. Neste ínterim, outros grupos começam a se movimentar para que seus interesses se concretizem em meio a este cenário, como é o caso da Frente de Libertação da Humanidade, formada pelos antigos vilões e liderada por ninguém menos que Lex Luthor, além de um novo time de Renegados juntado pelo Batman e também os novos heróis que preferem manter seus métodos radicais, que tem sua principal face em Magog, grande antagonista da história. Os ânimos se acirram quando o kryptoniano e seus aliados decidem pela construção do complexo prisional chamado de Gulag, o que acaba a acarretar um confronto que termina com a literal morte da inocência dos gibis do passado.

O trabalho desenvolvido por Waid e Ross pode ser enxergado através de duas óticas que podem render diferentes interpretações, ambas honestas. Uma delas é a de um leitor leigo, que o encara como uma grande história de super-heróis que levanta questões filosóficas, reimagina o universo DC de forma plausível dentro de seu próprio contexto e apresenta uma mensagem de otimismo e esperança para o futuro. A outra é a do leitor veterano, que consegue enxergar o mesmo que o colega recém-iniciado, mas também entende que Reino do Amanhã é uma espécie de manifesto contra o estado em que os gibis estadunidenses se encontravam na década de 1990 ao exercitar seus conhecimentos sobre o contexto da época e as principais editoras do mercado. Isso é algo dito e reiterado pelos próprios criadores, seja no tempo do lançamento ou nos anos que se seguiram, e que se torna explícito tanto pelo teor da obra, quanto pelo visual de muitos dos novos personagens, como é o caso de Magog, claramente inspirado em Cable, dos X-Men, ou do Americommando que, como dito pela dupla, é "o Capitão América se tivesse sido criado pelo Rob Liefield".

Uma nova era para os velhos heróis.

A arte de Alex Ross, vale ressaltar, caiu como uma luva para o teor da história. Seu estilo realista, aliado ao texto rico e valoroso de Mark Waid, consegue aliar o clássico ao moderno e dá ao quadrinho o tom imponente necessário para seu impacto e êxito, especialmente no que diz respeito aos super-heróis, que não poucas vezes são retratados como deuses ao melhor estilo greco-romano, elevando ainda mais a figura de tamanhos ícones da cultura pop mundial e alçando-os a um lugar em um panteão inalcançável. Mesmo as cenas de ação, que exigem maior sensação de fluidez e são alvo das principais críticas ao trabalho do artista, entregam a dinamicidade necessária e se saem bem no resultado final. É de se destacar, ainda, a composição das cenas e desenvolvimento dos visuais dos personagens, os quais ficaram todos a seu encargo, trazendo ideias interessantes para uniformes que certas vezes acabaram sendo incorporados ao universo regular, como é o caso do Robin Vermelho. E, como curiosidade, é justo informar que o visual do pastor Norman McCay é inspirado no pai de Ross, que serviu como modelo para seus desenhos.

Conforme dito anteriormente, a obra envolve basicamente todo o universo da DC, mas seu grande protagonista é o Superman. Tal destaque não é mero acaso, já que ele, na posição de primeiro super-herói já criado e, consequentemente, grande arquétipo do gênero, acaba por ser a incorporação antigos valores e tradições dos velhos gibis, algo que fica claro na história, especialmente em seu confronto com Magog, representante do que havia de novo. Ao mesmo tempo, é interessante ver durante o avançar da trama que, apesar de seu coração estar no lugar certo, sua cabeça não está e sua visão, tão presa ao modo que o mundo era outrora, acaba por levá-lo a tomar decisões equivocadas que levam a um resultado final irremediável. E é por isso que, ao final, ele cresce e muda sua postura de combativa para humanitária, o que é seguido pelos demais heróis, que passam a ajudar o mundo de outras formas. Esta visão acabou por definir o papel dos personagens na vida real dali em diante, com as boas histórias criadas desde então refletindo-a.

Reino do Amanhã foi lançada em diversos formatos ao redor do mundo. No Brasil, especificamente, saiu como minissérie em quatro edições separadas pela em 1997 e encadernado em 1998, ambos pela Editora Abril. A encadernação foi relançada em 2004 pela Panini que, a partir de 2013, passou a adotar o formato de luxo da publicação, o qual se encontra disponível em lojas e livrarias neste momento. Recheado de extras, conta com um enorme posfácio detalhando muitos dos aspectos do processo criativo, além de apresentar páginas extras que não constavam nas primeiras versões, como é o caso das cenas do Superman em Apokolips conversando com Orion e do epílogo no restaurante Planeta Krypton, que se encaixou perfeitamente com o resto da história e só intensificou sua mensagem.

O cenário dos quadrinho de super-herói estadunidense estavam salvos graças ao Superman e, principalmente, a Mark Waid e Alex Ross. Ou pelo menos até a chegada de uma nova "ameaça"... Mas isso é assunto para outra hora.