quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Mulher-Maravilha" e o futuro das heroínas no cinema

As mulheres da DC em arte feita pelo sempre sensacional Adam Hughes. Da esquerda para a direita: Mulher-Gato, Barbara Gordon, Zatanna, Canário Negro, Poderosa, Mulher-Maravilha, Supergirl, Batwoman, Vixen, Hera-Venenosa e Arlequina.

O filme da Mulher-Maravilha já é um marco na história das adaptações de quadrinhos para o cinema. Um sucesso de crítica e bilheteria que vem quebrando recordes de arrecadação, teve a menor proporção de queda na arrecadação entre a primeira e a segunda semana de exibição desde o primeiro Homem-Aranha, de 2002, e um percentual de 92% de aprovação no agregador Rotten Tomatoes. Mais do que isso, porém, é uma conquista para o público feminino envolvido com o meio: o primeiro longa de super-heroína protagonizado por uma mulher, dirigido por uma mulher, o maior orçamento aprovado para uma diretora e, até o momento, a maior estreia com uma mulher na direção, tendo feito $100 milhões nos EUA e $225 milhões no total em seu primeiro fim de semana.

Todo esse triunfo vem como um tapa na cara de estúdios e produtores que, ao longo dos anos, tenderam por evitar o lançamento de filmes de ação e aventura com protagonistas femininas, se usando do argumento de que "não atrairia público". A situação era ainda pior quando o assunto era super-heróis e adaptações de quadrinhos, já que essa mídia foi, por muito tempo, tida como algo exclusivo do público masculino branco de classe média, jogando para longe qualquer ideia que pudesse ser estrelada por uma mulher. Como dito pelo astro das HQs Mark Millar no Twitter, acharam que seria melhor um guaxinim protagonizar um longa antes de dar o papel principal a alguém do sexo feminino.

Mas, conhecendo como Hollywood funciona, o sucesso de Mulher-Maravilha também é o indicativo de que, em breve, novos filmes de super-heroínas devem ser confirmados pela Warner, Marvel, Fox e Sony. As personagens também devem ganhar papéis maiores em longas de grupos como Os Vingadores, X-Men e Liga da Justiça, e até mesmo as coadjuvantes como Lois Lane devem receber mais destaque em um futuro próximo. Como um comparativo, basta ver o efeito que Deadpool teve na indústria: após o sucesso que a adaptação do Mercenário Tagarela obteve, a Fox anunciou a sequência da película e até mesmo planos para a X-Force, Logan foi confirmado e lançado com classificação etária para maiores de 18 anos, a Sony divulgou que fará um filme do vilão Venom voltado para esse público, e até mesmo Kevin Feige vem falando de um universo adulto na Marvel Studios. É a regra: se foi elogiado e rendeu boa bilheteria, deve ser repetido até a exaustão.

Essa tendência é vista com bons olhos, claro, afinal dará às mulheres seu justo lugar no protagonismo de longas que não sejam dramas ou comédias românticas. Entretanto, tudo isso seria em vão se os estúdios optassem por uma abordagem apelativa, com heroínas em trajes ínfimos e sexualizados, algo que infelizmente já foi tendência nas HQs e que tristemente ainda persiste nas mentes de alguns deslocados no tempo. Mas, com o movimento feminista crescendo cada vez mais entre as atrizes e envolvidas nas produções hollywoodianas, a chance para que um cenário como este ocorra é pequena e, mesmo que venha a acontecer, haverá grande resistência e críticas incessantes.

Projetos são o que não faltam: antes mesmo do lançamento de Mulher-Maravilha, a Marvel Studios já tinha programado em seu calendário um filme solo da Capitã Marvel ("curiosamente" anunciado dias depois da confirmação da adaptação da Amazona para as telas), estrelado por Brie Larson e com o casal Anna Boden e Ryan Fleck na direção. A DC Entertainment/Warner também já havia feito alguns anúncios antes da estreia da aventura de sua principal heroína, como o longa da Batgirl, a ser dirigido pelo excelente Joss Whedon, e o das Sereias de Gotham, grupo formado pelas vilãs/anti-heroínas Mulher-Gato, Hera-Venenosa e Arlequina, que contará com o retorno de Margot Robbie ao papel, assim como do diretor David Ayer. A Sony, por sua vez, já anunciou uma película própria dedicada à dupla Gata Negra & Sabre de Prata, coadjuvantes do Homem-Aranha, enquanto a Fox não divulgado nada dedicado às personagens sob seu domínio, mas sabemos que seus próximos produtos, X-Men: Fênix Negra e Novos Mutantes, devem se focar em suas protagonistas femininas, além de haver o desejo de que Laura Kinney, a X-23, seja a sucessora do Wolverine no universo cinematográfico dos mutantes.

O que mais pode estar por vir, porém? Rumores recentes dizem que a Supergirl pode vir a fazer sua estreia no Universo Expandido DC em uma eventual sequência de O Homem de Aço, que já está em desenvolvimento desde o final do último ano. Alguns boatos mais antigos consideram quase certa uma aparição das demais Aves de Rapina (Canário Negro e Caçadora) no longa solo da Batgirl. E, quem sabe, talvez agora o tão pedido filme individual da Viúva Negra finalmente ganhe o aval para ser feito, dando o protagonismo que a personagem interpretada por Scarlett Johansson merece no Universo Marvel. Também deve ser questão de tempo até a Sony, nessa sua loucura de fazer derivados do universo do Homem-Aranha, anunciar uma aventura própria para Mulher-Aranha (embora ninguém tenha certeza se os direitos da personagem estão com eles ou com a Marvel).

Outras boas pedidas estariam entre as jovens das duas concorrentes: na Editora das Lendas, personagens como Donna Troy, Estelar ou Cassie Sandsmark, de grupos como os Novos Titãs e a Justiça Jovem, ganhariam espaço e conquistariam a audiência, enquanto outras como a Batwoman, a Salteadora e Cassandra Cain (a segunda Batgirl que hoje atende por Órfã) seriam excelentes pedidas caso a Batfamília venha a aparecer em sua formação completa. Já na Casa das Ideias, heroínas adolescentes como a Ms. Marvel Kamala Khan e integrantes dos Jovens Vingadores, como a Gaviã-Arqueira Kate Bishop, a Miss America Chavez e Cassie Lang (a filha do Homem-Formiga, que inclusive já apareceu no filme do personagem), seriam as escolhas mais acertadas para se comunicar com as garotas da atualidade. Também vale a menção à Mulher-Hulk, que poderia render um filme no mínimo interessante.

Muitas devem ser as mudanças a respeito da postura dos estúdios de cinema quanto às suas super-heroínas nos próximos anos. O pioneirismo de Mulher-Maravilha abriu as portas para um nova era de protagonismo feminino nas telas, que deve ser aproveitada pela indústria ao máximo, e quem mais sai ganhando são os fãs, especialmente as mulheres. Se tudo for feito com o devido respeito, sem exposição ou sexualização sem necessidade, pode sair muita coisa bacana e criativa daí. E que venham os filmes da Batgirl, Capitã Marvel, Sereias de Gotham e todos os demais que forem confirmados!

Algumas das mulheres da Marvel em arte assinada por "R. Martinez". Da esquerda para a direita: Jean Grey, Gata Negra, Mulher-Invisível (Sue Storm-Richards), Mulher-Aranha (Jessica Drew), Mística, Feiticeira Escarlate, Tempestade, Emma Frost, Psylocke, Cristal, Tigresa, Ms. Marvel (Carol Danvers), Mulher-Hulk, Vampira, Kitty Pride, Mulher-Aranha (May Parker de uma Terra Paralela) e Flama/Estrela de Fogo.

terça-feira, 27 de junho de 2017

[RESENHA] The Wild Storm #5 - "Chapter Five" (2017)


Fica mais difícil resenhar The Wild Storm a cada mês que se passa. Além de começar a faltar adjetivos, também não há muito mais a ser dito que já não tenha sido nas últimas quatro vezes. Ou seja, a consistência na qualidade dessa publicação é a maior aliada de seus leitores, mas também a maior inimiga dos críticos ou daqueles que gostam de analisá-la. Mas também vale dizer que a história vem caminhando num ritmo mais lento que o esperado, com Warren Ellis muito focado em estabelecer todo aquele universo antes de pular de cabeça na ação que o consagrou em StormWatch e The Authority.

Nesta quinta edição, mais voltada a desenvolver os personagens e suas interações, a trama se desenrolou de forma interessante, com algumas viradas e mudanças de lado pouco previsíveis. Zealot encontrou com um Daemon, a nova versão dos Daemonites de WildC.A.T.s, e Adrianna Tereshkova, a Void, falou um pouco mais sobre seu passado, em uma conversa pouco ortodoxa com Angela Spica, a Engenheira. O grande destaque, porém, vai para Michael Cray, que tomou algumas decisões controversas e que certamente influenciarão seu futuro, ainda mais com sua revista solo vindo aí.

Não dá para ter tanta certeza quanto à direção que The Wild Storm está tomando, mas novos indícios vem indicando cada vez mais que há algo muito maior por trás desse quadrinho do que uma mera disputa entre a IO, a SkyWatch e os WildC.A.T.s. E, com a próxima edição sendo publicada apenas em agosto, vai ser difícil segurar a curiosidade.

Confira cinco páginas desse número #5 de The Wild Storm:





segunda-feira, 26 de junho de 2017

"Espere por mim" - A resenha do episódio "World Enough and Time" de Doctor Who (S10E11, 2017)


Ao longo desses mais de dois meses de exibição da décima temporada de Doctor Who eu venho dizendo que, por este ser o ano final do showrunner Steven Moffat e do ator Peter Capaldi, o seu encerramento não seria nada além de épico e apoteótico. A chegada de World Enough and Time, seu décimo primeiro episódio, veio para confirmar essa teoria, dando início a um final repleto de emoções e nos presenteando com um dos pontos mais altos dessa fase e, por que não, de toda a série.

Aqui, tivemos participações mais do que especiais do Mestre de John Simm e dos Cybermen Mondasianos, como prometido por todo o material de divulgação. Nada, porém, foi feito de modo gratuito, como mero fanservice: a trama do capítulo amarra cada ponta, justifica cada escolha, dá uma reação para cada ação. O roteiro foi construído de forma meticulosa, usando-se magistralmente de conceitos complexos de física quântica sobre espaço, tempo e buracos negros da forma mais didática possível, entregando uma das histórias mais tensas e tristes que o programa já viu.

Muito disso só é possível graças à equipe técnica e aos atores, contudo. Toda a fotografia do episódio, coordenada pela já veterana diretora Rachel Talalay, é essencial para criar seu clima de suspense e claustrofobia, algo que o espectador sente na pele, ao ponto de chegar ao fim sem fôlego. Pearl Mackie também merece todos os elogios possíveis, sendo a figura central do capítulo e apresentando uma de suas melhores atuações na temporada, tendo transmitido cada emoção com muita intensidade. Não dá para deixar de citar, ainda, John Simm, que foi essencial ao episódio, especialmente nos momentos finais, deixando um dos melhores ganchos já vistos em toda a série (com direito até a referência a um dos mais clássicos arcos do 4º Doutor).

Nos últimos anos, Doctor Who tem criado uma tendência muito semelhante a de Game of Thrones, em que o penúltimo episódio é sempre o melhor da temporada: na oitava, tivemos o excelente Dark Water; na nona, fomos presenteados com Heaven Sent; e na décima, seguindo o padrão, World Enough and Time nos surpreendeu com sua inteligente construção e brilhante execução. Faltando apenas mais uma semana, só nos resta aguardar por um season finale que promete ser imprevisível e marcante.

CONFIRA A PRÉVIA DO EPISÓDIO FINAL DA TEMPORADA, THE DOCTOR FALLS:

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O filme do Han Solo só tem a perder com a saída de Phil Lord e Chris Miller


O mundo do entretenimento foi pego de assalto na noite de ontem com o anúncio do desligamento dos diretores Phil Lord e Chris Miller do comando do filme (ainda sem nome oficial) do Han Solo, vindouro spin-off da saga Star Wars, nos mesmos moldes do elogiado Rogue One, que contará as origens do contrabandista mais querido da galáxia. A surpresa foi ainda maior pelo fato do longa já estar em fases avançadas de filmagens, que tiveram início em 20 de fevereiro deste ano (ou seja, a dupla dedicou exatos 4 meses de trabalho direto à produção), e ter data de lançamento mundial prevista para 25 de maio de 2018.

Mas independente de qual foi o motivo que culminou nessa saída, seja o acordo mútuo por diferenças criativas da versão oficial, a demissão por pura implicância de Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan divulgada extraoficialmente ou qualquer outra louca história de bastidores que venha a aparecer, o filme só perde com o não-envolvimento de Lord e Miller. Mais conhecidos por dirigirem Uma Aventura LEGO e os dois Anjos da Lei, os caras também já figuraram como roteiristas e produtores de diversas aclamadas séries de comédia, incluindo Brooklyn Nine-Nine, The Last Man on Earth e até mesmo How I Met Your Mother, durante sua excelente primeira temporada.

A dupla é conhecida por seu senso de humor diferenciado, como fica bem claro pelos projetos que já participaram. Esse estilo casaria perfeitamente em um longa protagonizado por um personagem como Han Solo, conhecido por suas tiradas ácidas, sarcasmo e malandragem em meio às enrascadas que se envolve em suas aventuras. E, como ficou claro em Anjos da Lei, eles também sabem trabalhar a amizade (ou, sendo mais específico, o bromance), algo que seria vital para o relacionamento do protagonista com o também icônico Lando Calrissian, já confirmado na trama.

Um dos motivos que mais me empolgavam para esse filme era justamente o fato de ser comandado por Phil Lord e Chris Miller, diretores em ascensão em Hollywood que vinham provando sua qualidade com o lançamento de longa-metragens divertidos e despretensiosos, mas com substância e alguma mensagem (por mais distorcida que ela seja), algo que cairia como uma luva para o futuro derivado de Star Wars. E, por mais que eu confie em Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan na maior parte do tempo, acredito que eles tenham errado feio dessa vez. No fim, não são Lord e Miller quem perdem a direção de Han Solo, mas Han Solo que perdeu a direção de Lord e Miller.

E, com o retorno dos rumores de que eles serão responsáveis pela adaptação do super-herói Flash para o cinema, talvez a grande vencedora nisso tudo seja a Warner e a DC Entertainment.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"É hora de crescer" - A resenha do episódio "The Eaters of Light" de Doctor Who (S10E10, 2017)


A décima temporada de Doctor Who chega a sua reta final com uma consistência invejável aos seus outros anos. Uma sequência incrível de bons episódios, com aventuras divertidas e subtextos com temas interessantes e pertinentes faz com que a série desconheça adjetivos como "fraco" e "ruim" em 2017 até o momento, já que The Eaters of Light é mais uma bem vinda adição a essa coleção de êxitos, com uma trama interessante e bela fotografia.

Em uma história com premissa até semelhante à de Thin Ice, este capítulo se passou todo na Escócia, durante os tempos do fim da expansão do Império Romano, e trouxe uma interessante perspectiva sobre o conflito travado entre os conquistadores de Roma e os povos tidos como bárbaros, culminando na reflexão de como grande parte dos confrontos existentes pode ser resolvido na base do diálogo e explorando um dos recursos mais clássicos da TARDIS como nunca antes. Vale também o destaque para toda a conversa entre Bill e os centuriões sobre sexualidade, uma vez que os romanos são historicamente conhecidos por sua liberdade quanto ao assunto. Curiosa a abordagem do tema no mesmo final de semana em que ocorreu a Parada Gay em São Paulo (coincidência? Provavelmente sim).

Com apenas mais dois episódios (e um especial de Natal), já vai ficando a saudade no coração dos fãs de Doctor Who, seja deste ano da série ou de Peter Capaldi encarnando o Doutor. E, se World Enough and Time e The Doctor Falls cumprirem o que prometem como desfecho, esta décima temporada certamente figurará entre as melhores desta encarnação moderna da série e, por que não, do programa como um todo.

CONFIRA A (EXPLOSIVA) PRÉVIA DO PRÓXIMO EPISÓDIO, WORLD ENOUGH AND TIME: